Um ano depois, escolas avaliam positivamente os impactos da restrição do uso de celulares

Educação

Um ano depois, escolas avaliam positivamente os impactos da restrição do uso de celulares

Relatos indicam melhorias no comportamento e na aprendizagem, mas expõem dificuldades no cumprimento da lei

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Um ano depois, escolas avaliam positivamente os impactos da restrição do uso de celulares
Professores consideram mudança como fator de melhora no desempenho de aprendizagem. (Foto: Jô Folha)

A lei que restringe o uso de celulares nas escolas completou um ano em 13 de janeiro. Durante pronunciamento em rede nacional, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que a medida já apresenta resultados positivos em todo o país. No cotidiano das escolas, no entanto, a aplicação da norma ainda gera diferentes avaliações entre gestores, professores e especialistas em educação.

Para o doutor em Educação e professor titular do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de Pelotas (UFPel), Mauro Del Pino, a restrição do uso de aparelhos eletrônicos no ambiente escolar tem sido fundamental. “As crianças têm sido acometidas por uma sobrecarga de informações e de exposição às telas, para além do que a Organização Mundial da Saúde e outras pesquisas apontam como adequado”, explica.

Apesar de episódios de ansiedade no início do processo, o educador afirma que já é possível observar uma melhora significativa na participação dos alunos em sala de aula.

Melhora no desempenho

Esse cenário pôde ser observado na Escola Estadual de Ensino Médio Monsenhor Queiroz. “A medida contribuiu para resgatar o foco no processo de ensino-aprendizagem e para promover um ambiente escolar mais equilibrado e saudável”, afirma a orientadora educacional Luciane Crochemore.

Segundo ela, as mudanças na rotina dos estudantes são evidentes. Os alunos passaram a interagir mais entre si, participar de atividades coletivas e demonstrar maior envolvimento com as propostas pedagógicas. Além disso, o ambiente escolar tornou-se mais organizado e propício à aprendizagem, com redução de conflitos relacionados ao uso inadequado dos aparelhos. “Também percebemos alunos mais atentos, participativos e, em muitos casos, com melhora no desempenho escolar”, relata.

A experiência também tem sido positiva na rede privada. No Colégio Gonzaga, em Pelotas, a implementação da lei foi acompanhada por um trabalho de conscientização junto a famílias, professores e estudantes. De acordo com a orientadora educacional Adriana Rosinha, ao longo do ano letivo foi possível identificar mudanças significativas no comportamento dos alunos. “Percebemos estudantes mais focados, engajados nas atividades e com maior interação entre os colegas. A criatividade veio à tona, e o professor também precisou se reinventar, propondo dinâmicas que não dependessem do uso do celular”, afirma.

Tecnologia no aprendizado

Apesar da restrição, Del Pino ressalta que as tecnologias podem – e devem – ser utilizadas de forma pedagógica, especialmente nos anos finais do ensino fundamental e no ensino médio. Como a escola é um espaço de segurança e educação, segundo ele, é essencial garantir um contato qualificado com as ferramentas digitais.

O educador defende a inclusão de conteúdos relacionados à cultura digital e à inteligência artificial (IA) no currículo escolar. Também destaca a importância de discutir temas como ética na IA, funcionamento dos algoritmos e combate às fake news, de modo a preparar os estudantes para uma participação mais segura na vida escolar e social. “Vivemos um momento em que esse tipo de discussão não pode ficar fora da escola. Pelo contrário, ela diz respeito à educação do povo, à inserção no mundo do trabalho e à possibilidade de participação digna na vida política, econômica e social da sociedade brasileira”, afirma.

Essas práticas já foram adotadas em países como Finlândia e China e devem ser implementadas pela Secretaria Municipal de Educação de Pelotas. Segundo Del Pino, a partir de abril, será iniciada uma formação continuada para capacitar professores, desde a educação infantil, no trabalho com cultura digital e inteligência artificial.

No Colégio Gonzaga, já existem momentos específicos destinados ao desenvolvimento da cultura digital, sempre com intencionalidade pedagógica. “Vivemos em uma sociedade digital e não podemos ignorar isso. O problema não é a tecnologia, mas o uso sem propósito educativo. Quando há planejamento, o uso é positivo e formativo”, pontua Adriana.

Desafios do cotidiano

Apesar dos benefícios associados à restrição, o diretor da Escola Estadual de Ensino Médio Coronel Pedro Osório, Jader Rodrigues, aponta desafios diários na aplicação da lei. Para ele, a legislação não garante segurança quanto à forma de execução da medida no ambiente escolar. “A lei estabelece a restrição, mas não orienta de forma prática e objetiva como deve ocorrer o processo de intervenção quando a regra é descumprida”, explica.

Segundo o diretor, no primeiro ano a escola apostou no bom senso dos alunos. Na metade do período letivo, foram adquiridas caixinhas para guardar os aparelhos, mas a estratégia acabou gerando conflitos entre estudantes, professores e responsáveis. “Neste ano, não vamos deixar de lado o trabalho educativo nem o debate sobre o uso do celular, mas adotaremos uma postura mais firme. Ainda assim, considero que a legislação deveria ser mais clara, objetiva e prática”, conclui.

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