Presidente da Federarroz detalha ações do setor diante de cenário adverso

Entrevista

Presidente da Federarroz detalha ações do setor diante de cenário adverso

Entidades articulam ações de prevenção e tratamento para reequilibrar a cadeia do arroz

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Atualizado segunda-feira,
09 de Fevereiro de 2026 às 15:59

Presidente da Federarroz detalha ações do setor diante de cenário adverso
(Foto: Divulgação)

Representantes da cadeia orizícola do Estado apresentaram, na semana passada, sete medidas adotadas para enfrentar o cenário desafiador do setor. O presidente da Federação dos Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Denis Dias Nunes, classifica as providências como ações de prevenção e tratamento e analisa os impactos da super safra, além do contexto do mercado internacional, marcado pelo retorno da Índia e pela concorrência do Paraguai.

Segundo Nunes, a ocorrência de uma super safra já era visualizada como um risco em 2024. “Já alertávamos para que o produtor não tivesse euforia em aumentar a área”, afirma. O presidente destaca que, para a sustentabilidade do setor, o fator central é a produtividade. “Quando se aumenta a produção total, a situação se complica. E foi o que aconteceu em 2025: tivemos uma grande produção não só no Mercosul e no continente americano, mas também em nível mundial”, relata.

Diante desse cenário, uma das medidas adotadas foi a redução da área plantada, orientação que vem sendo seguida pelos produtores gaúchos. Dados da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) indicam uma redução de 1,068 milhão de toneladas na produção do Estado, o que representa uma queda de 12,2% em relação à safra anterior. Para a safra atual, o presidente do Instituto Rio Grande do Arroz (Irga), Alexandre Velho, estima que a área plantada fique entre 880 mil e 890 mil hectares – números divulgados na coletiva de impresa e que devem ser oficializados nos próximos dias.

Ainda, Nunes ressalta que a redução de área precisa respeitar as condições de cada produtor. “Temos produtores pequenos que dependem diretamente daquela receita e, nesses casos, não há como diminuir a área plantada”, afirma. Já produtores que trabalham com rotação de culturas e integração lavoura-pecuária possuem maior flexibilidade para ajustar o plantio.

Confira as sete medidas adotadas pelo setor:

  1. Redução da área plantada;
  2. Uso de mecanismos de comercialização (PEP e PEPRO);
  3. Estímulo às exportações por meio da Taxa CDO;
  4. Redução do ICMS no período de colheita;
  5. Desconcentração dos vencimentos das CPRs;
  6. Alongamento dos prazos de custeio e investimento;
  7. Combate à venda irregular de arroz fora do tipo especificado.

O debate sobre a situação da cadeia do arroz também deve chegar à Câmara de Vereadores de Pelotas, nesta terça-feira (10), em uma audiência pública. O encontro ocorre às 19h, no Plenário da Câmara, por proposição do vereador Michel Promove (PP) e por meio da Comissão de Agricultura e Pesca. A atividade é aberta ao público e deve reunir produtores, representantes de entidades do setor e autoridades.

Índia e Paraguai

Ao comentar o mercado internacional, o presidente da Federarroz explica que o retorno da Índia às exportações de arroz provocou uma queda nos preços em nível mundial. Esse movimento impactou diretamente as bolsas internacionais e os preços praticados nos Estados Unidos, o que acaba influenciando as exportações brasileiras e, consequentemente, pressionando o mercado interno. Além disso, a elevada produção no Brasil e no Mercosul contribuiu para o agravamento do cenário. “Tudo isso foi se acumulando. O mercado é muito dinâmico, ele não espera para ver como a situação vai se consolidar; ele já vai se movimentando antecipadamente”, avalia.

Sobre a entrada do arroz do Paraguai, Nunes afirma que a preocupação não é recente e, atualmente, o setor possui uma comissão específica para tratar das relações no âmbito do Mercosul. O presidente aponta que, em estados como Minas Gerais e São Paulo, a importação de arroz do Paraguai é facilitada por questões logísticas e por alíquotas de ICMS reduzidas ou até zeradas, o que aumenta a concorrência com a indústria gaúcha. “Não temos medo da concorrência – somos altamente produtivos –, mas precisamos corrigir as assimetrias dentro do Mercosul para que o setor não continue sendo penalizado”, ressalta.

Acordo Mercosul–União Europeia

Nunes também vê com bons olhos o acordo entre o Mercosul e a União Europeia. Segundo ele, foi aberta uma cota que permitirá a entrada de 60 mil toneladas de arroz beneficiado com condições comerciais facilitadas no bloco europeu. “Devem ocorrer mais cinco ou seis etapas até a abertura total. O acordo ainda está em processo de aprovação, pois depende dos congressos de cada país que integra a União Europeia”, explica.

Mesmo com as limitações iniciais, o presidente avalia como um mercado importante e remunerador. “São cerca de 450 milhões de consumidores, com capacidade de pagar por qualidade. Embora o arroz não seja um alimento de consumo tão expressivo por lá, ainda trata-se de um mercado relevante”, afirma.

Abertura da colheita

A abertura oficial da 36ª Colheita do Arroz e Grãos em Terras Baixas está marcada para os dias 24 a 26 de fevereiro, na Embrapa Clima Temperado, em Capão do Leão. Com o tema “Cenário Atual e Perspectivas – Conectando o Campo ao Mercado”, o evento terá foco em inovação, debates sobre o mercado e o futuro da orizicultura brasileira. Segundo Nunes, mesmo diante de uma conjuntura desafiadora, a expectativa é superar o público da edição anterior. “O evento está muito bonito e cresce a cada edição, tornando-se cada vez mais robusto e conceituado ao longo dos anos”, destaca.

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