Na região Sul do Estado, quando o assunto é uma faxina bem-feita, seja na limpeza do banheiro ou na remoção de manchas, um dos primeiros produtos que vem à mente de muitas pessoas é a Clorofina. Fabricada há 62 anos em Pelotas, no bairro Fátima, a qualidade do produto fez da marca um sinônimo de água sanitária e a consolidou como um nome de valor cultural para a cidade. O empreendimento, que começou com um motorista de entregas, hoje está sob a gestão da terceira geração da família.
A marca Clorofina foi fundada em São Paulo em 1954 por dois italianos, que posteriormente abriram fábricas do produto em Porto Alegre e Rio Grande. Na cidade portuária, Isnar Coutinho trabalhava na logística de entrega do alvejante para Pelotas. Ao constatar o bom desempenho comercial, o motorista teve a ideia de abrir uma unidade no município. A proposta foi aceita por um dos proprietários da Clorofina, e na garagem de uma pequena casa na Castilho foi iniciada a produção pelotense.
“Sem dinheiro, ele usou os chamados ‘anos de casa’, e assim foi montada a primeira fábrica. E quem trabalhava? Minha mãe, ele e os meus irmãos”, conta a filha Leni Costa Coutinho, hoje gestora da Clorofina. Após um ano de trabalho, surgiu a oportunidade de mudar a produção para um local maior, no bairro Fátima, e desde então a indústria da água sanitária faz parte da paisagem da rua Dr. Salvador Balreira. “Com dois ou três anos [de fábrica], meu pai conseguiu comprar o primeiro terreno em que estamos aqui; agora são quatro [de área total]”, conta Leni.
Negócio estabelecido no trabalho familiar
O empreendimento foi construído com o trabalho de toda a família de Isnar. A esposa Tharcilia Coutinho e três filhos eram responsáveis pelo processo desde a limpeza das embalagens — na época, garrafas de vidro de cerveja — até o envasamento da água sanitária e a distribuição de parte do produto. “Eles tinham que lavar [as garrafas] na água com um pouco de soda; meu irmão enchia, fechava, minha mãe rotulava e meu pai entregava. E assim foi por anos, até as coisas irem melhorando”, relata Leni.
Foram mais de duas décadas de dedicação quase total por parte dos Coutinhos à operação da Clorofina. Com a evolução do negócio, aos poucos foi possível contratar funcionários e adquirir alguns maquinários para aumentar a produção. Em paralelo ao crescimento, ao longo dos anos, as unidades de Rio Grande e Porto Alegre fecharam. Isnar comprou a outra parte da sociedade da fábrica de Pelotas e, hoje, a Clorofina só é produzida no bairro Fátima.
Sinônimo de água sanitária
O trabalho artesanal de engarrafar litro por litro de Clorofina pela família evoluiu para uma planta com várias máquinas de envasamento e capacidade de produção de 20 mil litros de água sanitária por dia. A gestão ainda está no seio da família, mas com a colaboração de 25 funcionários fixos, além de contratados como MEI para a logística de vendas em outras cidades.
Sempre com o empenho em entregar um produto de qualidade, Isnar transformou a Clorofina em sinônimo de água sanitária na região. A marca se tornou uma espécie de referência cultural para tratar de alvejantes em geral, mesmo quando o produto não é da Clorofina. “A preocupação do meu pai era qualidade e manter o padrão inicial. Às vezes, vou ao supermercado e escuto: ‘pegou a Clorofina?’, e às vezes nem é Clorofina”, diz Leni.
Conforme a gestora, a singularidade da marca tem origem no processo único de fabricação, que garante a eficiência do ativo do produto. Isso, segundo Leni, se deve à utilização do cloro em gás. “Nós somos os únicos fabricantes de água sanitária com esse processo. E isso dá maior durabilidade ao produto. Porque os outros não fazem assim, compram o hipoclorito pronto, colocam água, mexem e envasam”, explica.
Leni salienta a potência única da Clorofina, garantida ao longo das mais de seis décadas de comercialização, como fonte da confiança dos clientes. “É que tem o maior teor de cloro ativo. Garanto pra ti, porque a gente tem que estar sempre fazendo análise, e eu faço comparativo com os concorrentes. Nós somos os únicos fabricantes de água sanitária com esse processo”, afirma.
Grupo Clorofina
O portfólio da marca aumentou conforme as demandas dos clientes por produtos específicos. Além da clássica água sanitária, disponível em vários tamanhos de embalagem a partir de 1 litro, foram criadas as Clorofinas Fresh e Tira Mofo Concentrado. Mas para além da diversificação da Clorofina, Leni percebeu uma lacuna de mercado a ser preenchida: a de clientes em busca de uma água sanitária com valor mais em conta.
Apesar da relutância de Isnar em apostar em uma fórmula diferente da Clorofina, Leni conseguiu convencer o pai. Assim, nasceu, no início da década de 1990, a água sanitária Princesa e, posteriormente, a Gaúcha. “Começou a fluir, e pegamos outra fatia de mercado. Tem pessoas que querem qualidade sem se preocupar com o preço, e outras que queriam um preço mais baixo e pegavam a Princesa, que também não tem qualidade ruim”.
A ampliação do portfólio da empresa oportunizou um novo salto no desenvolvimento do negócio e, hoje, a água sanitária e o alvejante Princesa integram o Grupo Clorofina. “Com isso, conseguimos comprar uma máquina automatizada, outro caminhão e resolvemos colocar vendedores mais próximos dos clientes”, conta Leni.
3ª geração à frente de negócios de produtos de limpeza
Os aprendizados sobre empreendedorismo adquiridos com o pai impulsionaram Leni a lançar, na metade dos anos 1990, uma empresa própria: a Max Produtos de Limpeza. Com a produção de desinfetantes, amaciantes, detergentes, entre outros produtos, o empreendimento fica em frente à sede da Clorofina. Após a morte do pai, em 2014, Leni assumiu a gestão da Clorofina e da Princesa junto à mãe e ao irmão, e repassou a Max ao filho mais novo.

Leni Costa Coutinho é gestora da Clorofina. (Foto: Jô Folha)
Atualmente, o filho mais velho da gestora trabalha com ela na Clorofina, e os filhos do irmão dela assumiram o lugar do pai na empresa após a aposentadoria dele. Dessa forma, o que começou com o sonho de negócio no ramo da limpeza de Isnar, na década de 1960, já alcança a 3ª geração da família.
“Nos dá muito orgulho porque começou numa garagem, e a minha mãe e meu pai fizeram um produto tão bem feito que acabou conquistando o público de Pelotas. Eles deixaram um legado lindo, e a gente está onde está graças a todo o empenho deles”, declara Leni. A manutenção da qualidade da marca segue como principal ativo da empresa, mas o investimento da nova geração também se dá na diversificação. A gestora adianta que, em breve, os clientes da Clorofina contarão com um novo produto, mas mantém mistério sobre sua utilidade.
