Raquel Nörnberg, esposa do produtor rural Marcos Nörnberg, viu seu marido morrer atingido por tiros da Brigada Militar, em uma das operações mais equivocadas da história da BM no Rio Grande do Sul.
Raquel ficou cerca de duas horas submetida ao que chama de tortura, junto ao seu marido, já morto. Pressionada a dizer algo que não sabia, a dar nomes sobre os quais não tinha qualquer conhecimento.
Ela teve a vida ameaçada durante a operação, enquanto permanecia ajoelhada à frente de um grupo de policiais militares que erraram em todos os aspectos, do local da abordagem à forma como desencadearam a operação, sem autorização judicial, e confundiram o casal com criminosos.
Ninguém do Estado, responsável pela morte de Marcos, procurou Raquel até hoje para apresentar qualquer justificativa.
O sistema não pede desculpas. Não está no protocolo de quem responde por serviços públicos solidarizar-se com as vítimas. É praxe anunciar processos administrativos internos e inquéritos. A humanidade por trás do reconhecimento de falhas não encontra artigos na burocracia. Quando acontece, se acontece, é por iniciativa pessoal. Extremamente raro.
Costumo dizer no programa Debate Regional — de segunda a sexta-feira, na rádio Pelotense — que jamais cortaria a fita da entrega oficial da duplicação da BR-116, obra cuja conclusão está atrasada dez anos. Ao contrário, pediria perdão às pessoas pela incompetência enquanto governo e prometeria tirar lições, para não mais se repetir. Trataria o erro como ele merece ser tratado: um erro. Não será assim. Quando o último metro for concluído, com o quinto presidente da República no cargo desde o início do empreendimento, teremos fogos, confetes, poses para fotos e vídeos, e políticos tentando se apropriar da entrega.
O Estado não existe para ser mãe. Ele pulsa sem coração.
Raquel recebeu mensagens simbólicas de meia dúzia de autoridades, com apoios superficiais a respeito da tragédia imposta à sua vida. Nada da Brigada Militar, da Secretaria Estadual da Segurança Pública ou do Governo.
A viúva de Marcos carrega traumas. Dorme com dificuldade e ainda escuta as vozes que a ameaçaram naquela madrugada de horror. Vozes de servidores públicos do Rio Grande do Sul. De um organismo que não trabalha com lágrimas, mas com números.
O mea culpa não trará Marcos de volta e não apagará os erros cometidos. Falhas grotescas que deixaram cicatrizes profundas na família Nörnberg. Elas jamais fecharão. Marcas para serem lembradas no primeiro mês, no primeiro ano, no início do julgamento dos envolvidos (se acontecer), quando alguma decisão for divulgada. Para a esposa, os filhos e os amigos, a ferida sempre estará presente.
Muitas vezes, a mão estendida é tudo o que precisamos. Em momentos de medo, dor e desamparo, perceber alguém do nosso lado faz a diferença para seguirmos em frente. Não é o caso na morte do produtor rural de Pelotas, que perdeu a vida tentando defender sua propriedade, onde plantava frutas e colhia sonhos, ao ser confundido com bandidos.
Porque o sistema, essa máquina gelada, sem veias e sangue, ironicamente formada por seres humanos, não estende a mão e não pede desculpas.