A retirada da obrigatoriedade do teste de baliza no exame para a primeira habilitação no Rio Grande do Sul faz parte de mudanças nacionais na emissão da Carteira Nacional de Habilitação (CNH). Com a redução de custos e a flexibilização das exigências, o número de pedidos de CNH quadruplicou no país em janeiro, na comparação com o mesmo período de 2025.
Segundo a Secretaria Nacional de Trânsito (Senatran), foram 1,7 milhão de novos pedidos em janeiro, frente a 369,2 mil no ano passado. Desde dezembro, o país soma 3 milhões de solicitações, com 298,5 mil documentos emitidos. O programa nacional reduziu exigências teóricas e práticas nas autoescolas para acelerar a regularização de cerca de 20 milhões de brasileiros que dirigem sem habilitação.
Por outro lado, instrutores e especialistas alertam para possíveis efeitos negativos, como precarização do ensino, prejuízos aos Centros de Formação de Condutores (CFCs) e riscos à segurança viária. De acordo com o consultor técnico do SindiCFC-RS, Eduardo Balreira, nos últimos cinco dias mais de mil instrutores perderam seus cargos. Ele estima que cerca de dois mil CFCs já foram fechados no país, embora os números ainda estejam em consolidação.
Fim da baliza
Com a retirada da baliza, o exame prático passa a concentrar-se na circulação em via pública, avaliando a condução em condições normais de trânsito, finalizada com uma manobra de estacionamento. A decisão do DetranRS segue orientações da Senatran e está alinhada ao Manual Brasileiro de Exames de Direção e à Resolução 1.020/2025, do Contran.
Para a engenheira de trânsito Raquel Holz, a baliza sintetiza habilidades essenciais, como controle em baixa velocidade, percepção espacial, coordenação motora e tomada de decisão. “Ao excluí-la, o processo passa a avaliar menos diretamente essas competências, transferindo maior responsabilidade para a formação realizada pelos instrutores”, afirma.
Ela ressalta que os impactos dependem de como os instrutores conduzirão a formação. “Se a baliza deixar de ser tratada como conteúdo essencial, há risco de uma formação mais superficial. Mas, se o treinamento adequado for mantido, os efeitos negativos podem ser minimizados”.
Impactos nas ruas
O estacionamento em vagas reduzidas faz parte da rotina urbana, especialmente em áreas centrais e horários comerciais, como em Pelotas, com vias estreitas e grande fluxo de veículos. “Nessas condições, a habilidade de estacionar corretamente é fundamental”, destaca Raquel.
Segundo ela, condutores sem treinamento adequado podem apresentar insegurança, lentidão ou evitar certas situações, comprometendo a fluidez do tráfego. A longo prazo, podem ocorrer pequenos incidentes e dificuldades no uso eficiente do espaço viário.
Já Balreira apontam como principal preocupação do segmento o aumento do risco de acidentes. “As consequências devem aparecer em curto espaço de tempo, e as estatísticas tendem a comprovar isso rapidamente”, projeta.
Do ponto de vista técnico, Raquel pondera que ainda é cedo para avaliar impactos concretos. Segundo ela, o que se observa neste momento é adaptação administrativa e pedagógica das autoescolas, mais do que efeitos diretos no trânsito.
