“É fundamental pensar na prevenção”

abre aspas

“É fundamental pensar na prevenção”

Cristiano Martins - Coordenador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em Pelotas

Por

“É fundamental pensar na prevenção”
Coordenador orienta sobre a importância de manobras de primeiros socorros por leigos (Foto: Reprodução)

Há mais de uma semana, um raio atingiu manifestantes reunidos em Brasília (DF), durante o encerramento de um ato político. Segundo o Corpo de Bombeiros, 89 pessoas foram atendidas e 47 precisaram ser encaminhadas a hospitais. Casos como esse reforçam o alerta para os riscos de exposição durante temporais e a importância de saber como agir em emergências. Para orientar a população, o coordenador do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) em Pelotas, Cristiano Martins, explicou os principais cuidados, o papel do socorro imediato e como o acionamento correto do 192 pode salvar vidas.

Entre os atendimentos realizados pelo Samu, a parada cardiorrespiratória ligada a raios é uma ocorrência frequente?
Parada cardiorrespiratória é um grande número dos atendimentos que a gente realiza. Em relação ao raio, o que acontece são descargas elétricas. Quando tem um aglomerado de pessoas, como numa marcha ou manifestação, todo mundo fica mais propenso ao risco. Dependendo do nível da descarga elétrica, isso pode ocasionar uma parada cardiorrespiratória.

E como a população deve agir em situações assim?
A primeira coisa, tanto para a população quanto para o profissional de saúde, é pensar na segurança. Se eu estou no meio de uma marcha e começa uma tempestade com raios, eu preciso me proteger. E é importante ressaltar: não posso me proteger embaixo de árvore, nem em cerca ou grade. O ideal é procurar uma casa, um local fechado, com sistema adequado. Muitas vezes, durante o atendimento, a gente vê as pessoas se escondendo embaixo de árvore. Além do risco do raio atingir a árvore, ela ainda pode cair em cima das pessoas. Então é fundamental pensar na prevenção.

Em locais como praia, rio ou áreas abertas, o risco aumenta?
Sim. Se eu estou na praia e começa uma tempestade com raios, eu preciso sair. Muitas vezes a gente vê criança ficando, pessoas aproveitando, mas é de extrema importância se prevenir. Senão, infelizmente, pode acabar em tragédia, como vimos recentemente. Em situações como aquela manifestação, por exemplo, foram múltiplas vítimas.

Quando alguém é atingido por um raio e cai, as pessoas ao redor podem ajudar?
Se for uma descarga elétrica de raio, a pessoa não fica energizada, não vai transmitir choque para quem tocar. Mas o mais importante é ligar imediatamente para o 192 e passar as melhores informações possíveis: se a pessoa está consciente, se está respirando. Isso facilita muito o deslocamento da nossa equipe.

E quando alguém passa mal, por exemplo, como a população deve agir até o socorro chegar?
A principal coisa é ligar para o 192. Conversando com o médico regulador, ele vai orientar o que fazer. Se for uma crise convulsiva, ele orienta proteger a cabeça, lateralizar a pessoa. Se for uma parada cardiorrespiratória, ele já orienta iniciar as compressões. Tem dados científicos que mostram que quando o leigo inicia as compressões, aumentam muito as chances de reversão da parada. Primeiros socorros salvam vidas.

Falta mais orientação sobre primeiros socorros no dia a dia?
Com certeza. A gente não precisa ser médico, mas ter calma e noção do que fazer ajuda muito. Já vi situações em que as pessoas ficam só olhando e ninguém ajuda. Muitas vezes, o socorro pelo telefone até a chegada da ambulância salva vidas.

O Samu tem um projeto voltado às escolas, certo?
Sim. Desde o ano passado temos o projeto Samu Cuida na Escola. O nosso Núcleo de Educação em Urgência vai às escolas ensinar primeiros socorros para crianças e professores. A ideia é preparar para situações como engasgos, convulsões, choques, raios, e também orientar sobre o uso correto do 192, inclusive para reduzir trotes. Já tivemos feedbacks incríveis. Uma professora relatou que, depois do treinamento, conseguiu salvar uma criança engasgada. Isso é muito gratificante.

Os trotes ainda são um problema grande?
Infelizmente, são muitos. O trote é crime. Quando uma ambulância é deslocada para um trote, ela fica indisponível por 10, 15 minutos, enquanto outra pessoa pode estar precisando. Hoje temos uma unidade de suporte avançado, três de suporte básico e duas motos. Cada deslocamento desnecessário faz falta.

Acompanhe
nossas
redes sociais