Dicléa Ferreira de Souza, a mestra que ensinou Pelotas a dançar

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Dicléa Ferreira de Souza, a mestra que ensinou Pelotas a dançar

Referência do balé no Rio Grande do Sul, a ex-bailarina e professora mantém escola em funcionamento há mais de 60 anos

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Dicléa Ferreira de Souza, a mestra que ensinou Pelotas a dançar
XxxxxxLestius alique voloreprate porporrorem inullenim ullate evel (Foto: Divulgação)

Quando Dicléa Ferreira de Souza chegou a Pelotas, em julho de 1958, a cidade praticamente não conhecia o balé clássico como linguagem artística estruturada. Vinda do Rio de Janeiro, onde integrava o corpo de baile do Theatro Municipal e começava a ser chamada para papéis de destaque, a jovem bailarina trocou o centro cultural do país pelo interior gaúcho para acompanhar o marido, médico pelotense João Carlos Costa de Souza. A decisão, tomada no auge de sua carreira como intérprete, mudaria para sempre a história da dança em Pelotas.

“Eu pensei muito. Estava num momento muito bom, como solista, recebendo papéis importantes”, relembra Dicléa, hoje com 91 anos. “Mas fiz um acordo comigo mesma: eu iria, mas continuaria trabalhando com balé.” Cumpriu a promessa com rigor e paixão.

Formada pela Escola de Dança do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, Dicléa teve como mestres nomes fundamentais da dança mundial, como Tatiana Leskova – atualmente com 103 anos – com quem mantém amizade até hoje, além de Consuelo Rio, Vaslav Veltcheck, Madame Egorova, em Paris, Madame Preobrajenska e Hector Zaraspe, em Nova Iorque. Ainda jovem, destacou-se como solista do corpo de baile e integrou companhias como o Ballet da Juventude e o Ballet Society, sendo apontada como um dos grandes talentos de sua geração no balé brasileiro.

Mas o amor ao médico João Carlos alterou totalmente uma trajetória que parecia um roteiro pronto, que culmina com o estrelato nos palcos. Dicléa conheceu o futuro marido em um baile, apresentados por amigos em comum. Do namoro ao noivado e, depois, ao casamento ela confessa que não pensava em deixar o Rio e uma carreira promissora.

Auxiliada por Antoninha Berchon

Em Pelotas, o impacto foi imediato, não havia nada que a aproximasse daquilo para a qual ela havia se preparado por anos. Porém uma amiga da família do marido, a pecuarista Antoninha Berchon Sampaio foi a cicerone perfeita. Além de contratá-la para dar aulas particulares a duas de suas três filhas, levou seu nome para outras famílias, entusiasmando outras mães a confiarem as jovens aspirantes ao balé para a nova professora.

(Foto: Ana Cláudia Dias)

“Cheguei em julho e, em agosto, já estava trabalhando”, conta. Começou dando aulas no Conservatório Ângelo Crivellaro, então voltado à música. Havia 118 crianças à espera. “Eu dava cerca de oito horas de aula por dia. Muitas eram muito pequenas, não sabiam o que era balé. Comecei com brincadeiras, roda, musicalidade.” Em 1960, diante da grande procura, abriu a própria escola, inicialmente na rua Félix da Cunha.

A primeira grande apresentação veio em 1961, no Theatro Guarany, marco histórico para a cidade. Dicléa não esconde o nervosismo daquele espetáculo, que precisou de músicos da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre e enfrentou problemas técnicos. Mesmo assim, foi o primeiro balé clássico apresentado em Pelotas, abrindo caminho para uma trajetória de mais de seis décadas de formação artística.

Gerações de bailarinos

Desde então, a Escola de Ballet Dicléa Ferreira de Souza passou a formar gerações de bailarinos, muitos dos quais seguiram carreira profissional no Brasil e no exterior. Em seu auge, chegou a ter cerca de 250 alunos por ano. Entre os nomes formados ali estão artistas como Simone Lorenzi, Luiza Yuki, hoje atuando na Alemanha, além de sua filha, Daniela de Souza, bailarina premiada internacionalmente.

Porém, tanto quanto formar profissionais bem-sucedidos, a professora se orgulha de ter formado uma família na Escola, para onde muitos de seus ex-alunos sempre voltam. “Criamos uma família aqui”, fala.
Daniela assumiu a direção da escola no final da década de 1990, após estudar e dançar com Tatiana Leskova no Rio de Janeiro, integrar companhias profissionais, trabalhar com Carlos Henrique Machado Trincheiras no Ballet Teatro Guaíra e atuar em Portugal. “Eu adoro assistir às aulas dela”, diz Dicléa, orgulhosa. “Ela dá aulas de nível profissional para meninas de 15, 16, 17 anos.”

(Foto: Reprodução)

Embora a saúde mais frágil tenha afastado Dicléa da sala de aula, ela segue presente no cotidiano da escola, hoje localizada na rua General Osório. Morando ao lado, fez até um pequeno portão para acompanhar de perto os ensaios. Diretora geral dos espetáculos, continua sendo a referência estética, técnica e ética do trabalho desenvolvido. “Mesmo quem não vai se profissionalizar é conduzido a mostrar o melhor possível. Balé de repertório é cultura, é formação para a vida”, afirma.

A Magia da Dança

A fidelidade ao repertório clássico, com montagens como O Lago dos Cisnes, Giselle, A Bela Adormecida, Quebra-Nozes, Dom Quixote e La Bayadère, tornou-se um diferencial da escola. Especialistas e artistas de fora reconhecem esse padrão. “No Rio Grande do Sul, não existe outra escola que trate o balé de repertório com essa seriedade, inclusive com crianças”, comenta Daniela Sousa, sobre o que elas ouviram recentemente de profissionais convidados a assistir aos ensaios.

Ao longo da carreira, Dicléa acumulou prêmios, homenagens e títulos, entre eles o de Cidadã Pelotense, concedido pela Câmara de Vereadores, além de reconhecimentos nacionais e internacionais. Já foi tema de livro, exposições, pesquisas acadêmicas e até enredo de escola de samba vencedora. Entre 2006 e 2016, liderou o projeto social A Magia da Dança, levando o balé clássico a estudantes da rede pública municipal, iniciativa retomada em 2023. Atualmente o projeto prossegue, mas fomentado pela própria Escola, com a presença de crianças oriundas de famílias que não conseguiriam pagar pela formação, de forma gratuita. Também todo o material necessário é custeado.

Homenagem

Nesta última sexta-feira (30), recebeu mais uma homenagem, durante o concerto de encerramento do 14º Festival Internacional Sesc de Música. No palco montado no Largo do Mercado Central, milhares de pessoas puderam ver o alto nível dos bailarinos formados na Escola. Quem se juntou a esse espetáculo foram dez integrantes do Grupo Ballet de Pelotas, criado em 1972 por iniciativa de Diclea, para abrir espaço para os alunos e alunas avançarem no seu desenvolvimento técnico e artístico.

Na noite festiva, o Grupo Ballet de Pelotas apresentou partes da coreografia do espetáculo Kyklos, embalados por Vivaldi. A obra original, criada por Daniela Souza e Victor Medronha, Kyklos conquistou o primeiro lugar na 41ª edição do Festival de Dança de Joinville, na categoria Balé Neoclássico Sênior, na mostra competitiva Festival da Sapatilha, em 2024. Na ocasião, a maitrê recebeu o carinho e a saudação de nomes como Ana Botafogo, Cecília Kerche e Marcelo Misailidis, entre outros nomes importantes da dança no país.

(Foto: Divulgação)

Para quem deixou os palcos do Theatro Municipal do Rio para construir uma história longe dos grandes centros, o reconhecimento vem como confirmação. “Valeu a pena”, diz, sem hesitar. “Consegui formar público, lotar o Guarany, criar cultura. Isso é uma grande satisfação.”

Mais do que formar bailarinos, Dicléa Ferreira de Souza ensinou Pelotas a olhar para a dança como arte. Uma mestra que trocou o estrelato individual por um legado coletivo e fez da cidade um palco permanente de disciplina, beleza e memória.

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