Com um pai jornalista e uma mãe professora, não restavam muitos caminhos para mim e meu irmão seguirmos além das humanas. Desde pequena conseguia me enxergar fazendo o que ambos trabalhavam, e o Joaquim também.
O nosso caçula era a criança mais inteligente que eu já conheci. Quando ele tinha dez anos, já sabia todos os países e as capitais do mundo. Imagina competir com esse irmão. Eu sonhava com o Joaquim médico, cientista ou juíz federal, e acho que todos esperavam.
Quando eu iniciei o curso de Direito, pensava que seríamos colegas, e comecei a plantar a minha ideia na cabeça dele. De primeira, o Joca considerou. Depois, pensou melhor e disse que não queria “aquela chatice por seis anos”.
Depois, outro membro da família tinha opiniões sobre o que o caçula cursaria. Nosso pai tentou mostrar o curso de Relações Internacionais, já que o Joaquim sabia tanto sobre geografia. Pouco interesse com um simples: “É, quem sabe…”. Parecia que não havia ansiedade nenhuma sobre essa decisão que durante a minha escolha me fez arrancar cabelos e gerou noites sem dormir.
Chegou o momento que o “mano” nos apresentou a ideia dele, de cursar História. Com uma mãe formada em Filosofia, professora municipal e estadual, que amava a profissão, mas sabia muito bem todas as suas dificuldades, chegou a hora da matriarca falar a sua opinião:
-Não. Faz uma Arquitetura. Tu sempre amaste aquele jogo com blocos, de construir coisas, e estás quase terminando o técnico de Edificações.
Para que o Joaquim respondeu:
-Mãe, eu tinha oito anos. Naquela época todos os meus amigos jogavam esse jogo.
Meses se passaram e a ansiedade culminava apenas nos três integrantes da casa que não começariam a faculdade em breve.
Foi então que Joca fez sua decisão final. Ele seria jornalista esportivo. Algo importante que eu esqueci de mencionar anteriormente, é que o Joaquim só aprendeu sobre o mundo porque se interessava nos times de cada país, e tinha curiosidade para saber onde cada estádio ficava.
Meu pai suspirou e disse:
-Eu fico feliz que tu queiras seguir meu caminho de jornalista, mas o meio esportivo é muito competitivo. Tens que ter em mente que talvez tu sigas por aqui, trabalhando com algo parecido com o que eu faço. Eu sou muito feliz com o que eu faço, mas não sei se é o que tu te imaginas fazendo.
E foi aí que eu ouvi uma das coisas mais bonitas que saíram da boca do meu irmão de apenas 18 anos:
-E isso seria um problema? Pai, se esse for o pior cenário, eu ainda estaria extremamente contente com a minha vida. A nossa vida é muito legal.
Nossos pais conseguiram transmitir para nós dois o sonho de qualquer pai: que não só os enxergávamos como pessoas felizes, como admirávamos o que eles faziam e a vida que nos proporcionaram.
Nessa semana comemoramos os aniversários dos nossos pais e o resultado do vestibular.
Parabéns ao meu irmão pela brilhante conquista de passar para o curso de Jornalismo na Universidade Federal de Pelotas (UFPel). E parabéns aos nossos pais Jarbas e Simoni pelos aniversários, e pela maestria em criar filhos que gostam de escrever.