Os votos que Lula abre mão

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

Os votos que Lula abre mão

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Em sua recente agenda no município do Rio Grande, o presidente Lula (PT) disse à plateia que homens responsáveis por praticar violência contra as mulheres não precisam votar nele. Se levado ao pé da letra, Lula abre mão de 3,8 milhões de votos. Os números do ano passado apontam que, no Brasil:

3,7 milhões de mulheres sofreram algum tipo de agressão;

86.025 fizeram algum tipo de denúncia, a maior parte por violência física;

33.999 foram vítimas de estupros (média de 187 por dia), e;

1.470 foram vítimas de feminicídios (média de quatro assassinatos por dia).

Recentemente conhecemos os números mais atuais da violência no país, a partir da divulgação dos dados pelo Ministério da Justiça e Segurança Pública. Celebramos a redução de 11% nos assassinatos e o menor número de mortes violentas em 21 dos 27 estados. Até chegarmos aos feminicídios. Na contramão do cenário geral, no ano passado batemos o recorde desse tipo de crime: 1.470 casos entre janeiro e dezembro. Em 2024, foram 1.464, a maior marca até então.

A Comissão Econômica para a América Latina (Cepal) — uma das cinco comissões regionais das Nações Unidas (ONU) — alerta que, mesmo com avanços legislativos, crescente visibilidade e conscientização social e melhoria na resposta institucional dos estados, a violência contra as mulheres mantém-se como uma realidade persistente na América Latina e no Caribe. Trata-se de grave violação dos direitos humanos, seja ela física, sexual ou psicológica, na vida pública ou privada. “Sua expressão mais extrema é o feminicídio e inclui práticas nocivas, como casamentos infantis e uniões precoces, que impactam severamente adolescentes e meninas”, alerta a entidade.

Um relatório elaborado pela Cepal indica que a maioria das mortes de mulheres ocorreu dentro de relações entre casais. “Em oito dos dez países e territórios da América Latina e do Caribe, a informação disponível a esse respeito (Argentina, Chile, Colômbia, Costa Rica, Cuba, Paraguai, Peru, Porto Rico, República Dominicana e Uruguai) indica que o crime foi perpetrado pelo companheiro ou ex-companheiro em mais de 60% dos casos”. Por isso, torna-se urgente desenvolver políticas e programas que abordem as barreiras que elas enfrentam para acessar serviços e gerem confiança às vítimas, possibilitando denúncias e a busca por apoio e proteção nas instâncias públicas.

Os números, aliás, tendem a ser maiores, muito maiores. Opiniões colhidas em pesquisas na Argentina, Brasil, Chile, Equador, Honduras, México, Peru e Uruguai, de 2019 a 2024, revelaram que apenas entre 20% e 30% das mulheres que vivem situações de violência efetivamente utilizaram os serviços designados para isso. Logo, Lula pode estar abrindo mão de votos que ainda não aparecem nas estatísticas oficiais. Votos que carregam crimes diários contra quem sustenta sozinha sofrimento, dor, medo e sensação de desamparo.

Denunciar e ajudar quem precisa de socorro é obrigação de todos. A Central de Atendimento à Mulher é um dos caminhos. Ligue 180.

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