A investigação sobre a morte do agricultor Marcos Nörnberg, 48, ocorrida no dia 15 de janeiro, durante uma ação da Brigada Militar, segue em andamento e está sendo conduzida pela Divisão de Homicídios do Interior (DHI) da Polícia Civil. À frente dos trabalhos está o delegado Thiago Carrijo Fraga, diretor da DHI, que atua em conjunto com a delegada Walquíria Meder, titular da Delegacia de Homicídios e de Proteção à Pessoa (DHPP) de Pelotas.
Segundo o delegado, a apuração envolve a atuação integrada da Corregedoria da Brigada Militar, dos advogados dos policiais militares envolvidos, do advogado contratado pela família da vítima e do Ministério Público. Carrijo Fraga ressalta que, embora exista expectativa pela conclusão do inquérito, os trabalhos seguem o ritmo necessário para o completo esclarecimento dos fatos. O delegado afirma que o inquérito policial será finalizado oportunamente, com base na análise técnica e na coleta de todos os elementos necessários à investigação. Confira a entrevista:
“É fundamental analisar o contexto desses tiros e das falas”

Carrijo diz que pode haver prorrogação na entrega do inquérito (Foto: Reprodução)
Em que etapa está a investigação da morte de Marcos Nörnberg?
Não há um estágio específico. Nesta semana, por exemplo, o foco principal é ouvir todos os policiais militares que participaram da ação. Também podem chegar à Delegacia de Homicídios algumas perícias que foram solicitadas. A investigação avança conforme o dia a dia da delegacia e a disponibilidade dos envolvidos, policiais, advogados, Instituto-Geral de Perícias (IGP) e Polícia Civil. Neste momento, a prioridade são as oitivas dos policiais militares.
Quantos policiais devem prestar depoimento?
Em princípio, os 18 policiais que participaram da ação.
Quais perícias foram solicitadas?
Em todo local de homicídio há uma perícia técnica do IGP, que foi realizada em Pelotas. Já temos o laudo da autópsia. No entanto, foram solicitadas outras perícias, especialmente relacionadas ao melhoramento de imagens e áudios registrados na cena. Após a conclusão dessas análises e das oitivas, será feita uma avaliação completa do que ocorreu.
A divulgação das imagens pode atrapalhar a investigação? A polícia tem mais material do que o que foi divulgado?
O material que a polícia possui está sob sigilo. Não tenho conhecimento exato do que foi divulgado pela mídia, e a imprensa tem o direito de informar a sociedade. Em princípio, isso não interfere na investigação. A Polícia Civil analisará todas as imagens entregues à delegacia, contextualizando os fatos para, ao final do inquérito, apontar o que realmente aconteceu. A divulgação, claro, gera repercussão e pressão, mas não vamos comentar vídeos porque a investigação corre sob sigilo. Queremos uma conclusão rápida, mas, acima de tudo, técnica e consistente.
Sobre a hipótese de tiro à queima-roupa e possível execução, é cedo para qualquer conclusão?
Sim, é precoce. Estamos diante de um ambiente que indica um confronto policial. Trata-se de um espaço pequeno, com muitos envolvidos, diversos disparos, falas simultâneas. É uma situação de extrema adrenalina. Tecnicamente, há indícios de tiros a curta distância, até porque muitos disparos ocorreram dentro da casa. Mas é fundamental analisar o contexto desses tiros e das falas naquele momento. Tudo será avaliado com cautela.
A Polícia Civil investiga a origem da ação da Brigada Militar naquela madrugada?
A polícia só pode entrar em uma residência com ordem judicial ou em situação de flagrante. A morte do Marcos tem origem em um roubo a residência em Pelotas, de onde foram levados veículos. Os suspeitos foram presos no Paraná e, a partir da troca de informações entre as forças de segurança, houve o entendimento de que poderia haver produtos ilícitos na propriedade rural. A Brigada Militar organizou a diligência. O protocolo de atuação da BM cabe à própria corporação comentar. A Polícia Civil investiga a morte do Marcos. Esses dois presos já foram ouvidos pela Corregedoria da BM e, possivelmente, também serão ouvidos pela Polícia Civil. O protocolo da Brigada, não cabe a mim aqui comentar, até porque a BM, entendendo haver uma situação de flagrante dentro daquela residência, tem direito de entrar na casa. Diante do que aconteceu, tudo será analisado com cautela.
Pelo protocolo da Polícia Civil, como se dá o acesso a uma residência diante de uma pessoa armada?
A Polícia Civil dá voz de comando para cessar a fonte de risco, que é a pessoa armada. O procedimento é verbalizar repetidamente. O primeiro passo não é atirar, porque há situações em que a pessoa solta a arma e se rende. Se houver qualquer risco à vida do policial, o disparo ocorre em legítima defesa, amparado pela lei.
Em uma ação como essa, há um policial responsável pelo comando?
No mundo ideal, sim. Em uma operação, o delegado que está no local exerce o comando. Porém, na prática, quem se depara primeiro com o suspeito e tem contato visual com ele é quem verbaliza. Infelizmente, as situações não ocorrem de forma perfeita. Já vivi situações semelhantes às enfrentadas pelos policiais da Brigada. Estamos diante de um provável confronto policial, e não cabe julgamento precipitado.
Há possibilidade de prorrogação do prazo do inquérito?
Sim. Como não há ninguém preso, o prazo não é fatal. Diante da complexidade do caso, do número de pessoas a serem ouvidas (mais de 20) e das diversas perícias, é provável que seja solicitada a prorrogação para garantir uma investigação completa e de qualidade.
