Paz, equilíbrio e saúde mental no começo de 2026

Corpo e Mente

Paz, equilíbrio e saúde mental no começo de 2026

Durante o Janeiro Branco, profissionais chamam a atenção para o avanço dos transtornos mentais no Brasil e no ambiente de trabalho

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Paz, equilíbrio e saúde mental no começo de 2026
Hospital Universitário presta apoio psicológico a servidores. (Foto: Divulgação)

Quem sabe voltar um pouco à era analógica, deixar as telas um pouco de lado e usar os post-its para colocar os desejos físicos e emocionais em 2026? A proposta é do Instituto de Desenvolvimento Humano Janeiro Branco, com base em dados que apontam um mundo exausto de pressões, urgências e silêncios. A ideia é recuperar o centro, reconstruir vínculos e resgatar a serenidade que sustenta a vida. Quando a mente encontra paz, tudo ao redor respira melhor, inclusive as instituições, territórios e relações sociais, tão impactadas pela urgência das necessidades psicossociais humanas.

Em um cotidiano marcado pela pressa e pela sobrecarga emocional, a campanha adota um símbolo simples, os post-its, para transformar urgências em cuidados. Criada em 2014 pelo psicólogo mineiro Leonardo Abrahão, a campanha nacional surgiu inspirada em movimentos de conscientização como o Outubro Rosa e o Novembro Azul. O objetivo é sensibilizar a sociedade sobre o cuidado com a saúde emocional, incentivar a prevenção e estimular a busca por ajuda especializada quando necessário.

A escolha do mês não é aleatória. Janeiro simboliza recomeços, reflexões e novos projetos. O nome da campanha remete à ideia de uma “folha em branco”, um convite para que as pessoas repensem suas emoções, relações e prioridades. “O mês é um chamado para que cada pessoa reflita sobre suas emoções e se relacionar melhor consigo mesma”, destaca o criador da iniciativa.

Adoecimento emocional em alta

Dados recentes apontam que o impacto da pandemia deixou marcas profundas na saúde mental da população. De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), houve um aumento de cerca de 25% nos casos de transtornos mentais no Brasil no período pós-pandêmico. Pesquisas indicam ainda crescimento da angústia emocional, especialmente entre jovens com menos de 35 anos.

Os números também se refletem nos serviços de emergência. Atendimentos relacionados à saúde mental têm aumentado ano a ano, com alta significativa registrada pelo Samu em 2024 e 2025. Entre 2011 e 2022, as taxas de suicídio entre jovens cresceram, em média, 6% ao ano, enquanto as notificações de autolesão aumentaram 29% no mesmo período.

Sofrimento psíquico no trabalho

O ambiente corporativo tem sido um dos principais espaços de manifestação do sofrimento emocional contemporâneo. Segundo a psicóloga organizacional e clínica Luísa Montagner Pereira Mesko, que atua no Hospital Universitário São Francisco de Paula (HUSFP), as organizações enfrentam um aumento expressivo de casos de estresse crônico, ansiedade, burnout e sintomas depressivos.

“A sobrecarga de trabalho, a pressão por resultados, os prazos curtos e a dificuldade de equilibrar vida pessoal e profissional têm impacto direto na saúde mental. A sensação de estarmos sempre conectados, trazida pelo ambiente digital, contribui para o cansaço mental e a redução do bem-estar”, explica.

Prevenção

Para Luísa, o papel da psicologia no ambiente corporativo é cada vez mais estratégico e preventivo. Além do atendimento individual, a atuação envolve identificar sinais de sofrimento, apoiar lideranças e contribuir para a construção de ambientes de trabalho mais saudáveis e humanizados. “Mais do que ações pontuais, o cuidado precisa estar presente na cultura, nas decisões e na forma como as pessoas são tratadas no dia a dia”, afirma.

Como identificar sintomas

No setor de saúde, o que mais impacta a saúde mental dos colaboradores é a combinação de alta carga emocional e sobrecarga de trabalho. Jornadas longas, pressão por decisões rápidas e o contato constante com sofrimento, dor e morte tornam o dia a dia intenso e desgastante. “A dificuldade de descanso e de recuperação emocional faz com que muitos profissionais continuem trabalhando mesmo exaustos, agravando ainda mais o risco de adoecimento psicológico”.

Eventos

A Prefeitura de Pelotas, dentro do mês de conscientização sobre a saúde mental e emocional, promoveu em parceria da Secretaria de Recursos Humanos (Serh) e do Instituto de Previdência dos Servidores Públicos Municipais de Pelotas (PrevPel) em encontro no auditório do Pelotas Parque Tecnológico. O momento foi de integração, mas também de conscientização sobre a importância de cuidar tanto da saúde mental tanto quanto da saúde física.

O professor e enfermeiro Carlos von Laer apresentou a palestra “Saúde Mental no Serviço Público: Do Trabalho à Aposentadoria: Um guia para a resiliência, transição e envelhecimento ativo”. Desmistificando os conceitos do que seria a saúde mental ideal, como lidar com os impactos do ambiente de trabalho no psicológico e em como o servidor pode se sentir perdido e sem um pedaço da própria personalidade após a aposentadoria. Em uma das suas reflexões o enfermeiro destacou “Para muitos, a aposentadoria não é apenas o fim do trabalho, é uma redefinição do ‘Eu.”

Canais de escuta

A psicóloga Luísa explica que algumas ações simples podem fazer grande diferença na prevenção do adoecimento psicológico no trabalho. Entre elas: respeitar limites de jornada, incentivar pausas e momentos de descanso, oferecer canais de escuta e apoio psicológico, promover liderança empática e próxima, valorizar feedback positivo e reconhecimento e estimular o equilíbrio entre vida pessoal e profissional. “Pequenas mudanças no dia a dia ajudam a reduzir estresse, ansiedade e questões associadas, criando um ambiente mais saudável”, garante.

Mudanças

Programas de saúde mental tem efeito limitado quando não há mudança na cultura organizacional. “Oferecer apoio psicológico é importante, mas não suficiente se a rotina continua marcada por sobrecarga, pressão excessiva e falta de escuta”, observa Luísa. Sem revisão de práticas, liderança e condições de trabalho, esses programas acabam atuando apenas de forma paliativa. “Para funcionar de fato, o cuidado com a saúde mental precisa estar integrado à cultura, às decisões e à forma como as pessoas são tratadas no dia a dia”.

Tabus

A psicóloga explica que atualmente há mais abertura para falar sobre saúde mental nas empresas, mas o medo e o preconceito ainda estão presentes. Muitos colaboradores evitam expor seu sofrimento por receio de serem vistos como frágeis, pouco produtivos ou de sofrerem impactos na carreira. “Esse silêncio é mais forte em ambientes muito competitivos. O avanço acontece quando a empresa cria segurança psicológica e mostra, na prática, que cuidar da saúde mental não gera punição, mas apoio”.

Onde buscar ajuda

A saúde mental integra a rede de atendimento do Sistema Único de Saúde (SUS). O primeiro passo é procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), onde o paciente pode ser avaliado por um clínico geral e, se necessário, encaminhado para acompanhamento psicológico ou psiquiátrico. Os Centros de Atenção Psicossocial (CAPS) oferecem atendimento especializado, com equipes multidisciplinares, organizadas conforme faixa etária e demandas específicas.

Ações no HU

O Janeiro Branco é importante para conscientizar sobre a necessidade de cuidar da saúde mental, reduzir o estigma em torno de transtornos psicológicos e incentivar hábitos que previnem o adoecimento emocional. “Ao promover diálogo, autoconhecimento e atenção ao equilíbrio emocional, a campanha ajuda a criar ambientes mais saudáveis e fortalece a prevenção de sofrimento emocional”.

Luísa conta que ao longo do ano, o Hospital Universitário São Francisco de Paula realiza ações e palestras informativas sobre saúde mental e bem-estar dos colaboradores. “Neste ano, nossa programação está focada em oferecer informação prática e meios de apoio psicológico, de forma dinâmica e acessível, permitindo que os colaboradores possam buscar ajuda quando necessário. A ideia é falar sobre um tema tão importante de maneira informativa e descontraída, promovendo cuidado com o bem-estar de todos”.

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