Repressão policial levou objetos do Batuque gaúcho a museu alemão

Patrimônio

Repressão policial levou objetos do Batuque gaúcho a museu alemão

Artefatos sagrados apreendidos no século 19 no Rio Grande do Sul integram acervo do Museu Etnológico de Berlim

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Repressão policial levou objetos do Batuque gaúcho a museu alemão
Itens estão em exposição no Museu Etnológico de Berlim. (Foto: Divulgação)

Por mais de um século, eles permaneceram guardados em um museu europeu, catalogados sob o nome de um comerciante alemão. Hoje, reaparecem como testemunhas de uma história de repressão, resistência e circulação atlântica do sagrado africano no Rio Grande do Sul. São 67 objetos que compõem o que pesquisadores denominaram de “Coleção Batuque”, um acervo apreendido pela polícia no RS no final do século 19 e levado à Alemanha, onde permanece até hoje no Museu Etnológico de Berlim.

A trajetória dessas peças foi apresentada em uma roda de conversa realizada na quinta-feira à noite na Comunidade Beneficente Tradicional de Terreiro Caboclo Rompe Mato Ilê Axé Xangô e Oxalá, em Pelotas. A atividade partiu de uma parceria entre a Secretaria Municipal de Igualdade Racial e o grupo de pesquisadores da coleção, com o apoio do Conselho Municipal do Povo de Terreiro de Pelotas.

Crítica aos arquivos coloniais

Segundo o arqueólogo e professor da UFPel e da UFRJ, Lúcio Menezes Ferreira, a pesquisa começou a partir de pistas fragmentadas de artigos. A partir daí, a equipe decidiu avançar sobre os arquivos coloniais. “O que fizemos foi uma crítica ao modo colonialista pelo qual essas peças foram apreendidas e chegaram a Berlim”.

Além de Ferreira, a equipe é formada por Vinícius de Oliveira (IFSul), Jovani Scherer (Colégio Anchieta e doutorando em História na UFRGS), Fernanda Oliveira (Departamento de História da UFRGS), Nina Fola (mulher de axé, socióloga e multiartista) e Miguel Varela (fotógrafo e editor de vídeo). Acompanhe o grupo no Instagram (@colecaobatuquers).

Da apreensão ao museu

Para os pesquisadores, a origem da coleção está diretamente ligada a um processo de larga duração: a repressão ao sagrado africano. No Brasil, essa lógica atravessou o período colonial, o Império e a República – e, segundo o pesquisador, ainda não terminou. “No Estado, em 2024, houve um crescimento de 75% na depredação de terreiros e objetos de culto”, relata Ferreira.

Não se sabe exatamente em qual batida policial os objetos foram apreendidos, mas há indícios. “A partir de 1870, há fontes de jornais que registram essas apreensões em Pelotas, Rio Grande e Porto Alegre. Possivelmente ocorreu em uma dessas cidades”, afirma.

O destino das peças foi selado por Wilhelm Pietzcker, um alemão que migrou para o Rio Grande do Sul no final da década de 1870. Comerciante, com casas de consignação nas três cidades, Pietzcker teve conhecimento da apreensão. “Ele comprou por meio de uma doação à Santa Casa – não sabemos ainda de qual cidade – e a doou ao museu”, relata o pesquisador.

A pesquisa também aponta para a origem atlântica das peças. “Houve, ainda durante o regime escravista, uma forte presença de africanos classificados como Nagô e Jeje no RS”, explica. Estudos mostram que essa presença se intensificou a partir de 1820 e 1830, por meio do tráfico direto e da circulação interna entre províncias.

Essas populações criaram redes de solidariedade que extrapolavam o território gaúcho. “Havia vínculos com Salvador, Pernambuco, Rio de Janeiro e também com a África, especialmente com Lagos, na atual Nigéria”, afirma. Muitas dessas conexões foram identificadas por meio do estudo de passaportes. “Era comum que pessoas saíssem de Salvador, tivessem vínculos aqui e partissem para Lagos a partir do Porto de Rio Grande”. conta ele.

Por isso, para o pesquisador, a pergunta sobre uma origem única perde sentido. “Elas fazem parte da história cultural do Atlântico, dessas relações que africanos retornados constituíram e que deram origem tanto ao Candomblé na Bahia quanto ao Batuque no Rio Grande do Sul”.

Arte e ancestralidade

Ferreira teve acesso ao acervo ao visitar o museu, onde fotografou 36 artefatos em detalhes técnicos. “As peças têm uma origem estilística notadamente iorubá, associada aos grupos Jeje e Nagô”, explica. O conjunto inclui adornos, braceletes, colares, chales, coroas, filás, ferramentas de orixás – como o oxé de Xangô e a espada de Ogum –, além de esculturas em madeira revestidas com tecido, búzios e contas.

Para além da beleza estética, Ferreira destaca o valor acadêmico e político da coleção. “Cada uma dessas peças permite trabalhos em história da arte, arqueologia, antropologia e história da diáspora africana”, ressalta. Politicamente, elas se inserem em uma proposta antirracista. “Evidenciam a poética do Batuque no Rio Grande do Sul”.

Reparação simbólica

Desde outubro do ano passado, após mais de dois anos de pesquisa, o grupo articula movimentos para a repatriação física dos artefatos. Enquanto isso, realiza ações de restituição simbólica, como as exposições. “Estamos articulando o movimento negro, os povos de terreiro e o poder público. Esses objetos são emblemáticos da história da diáspora africana e, especialmente, da diáspora africana no Rio Grande do Sul”, conclui Ferreira.

O secretário de Igualdade Racial de Pelotas, Júlio Domingues, destaca que a iniciativa reforça o papel do poder público na construção de políticas de reparação histórica. Segundo ele, o debate sobre a coleção extrapola o campo acadêmico e cultural. “Estamos falando de objetos sagrados, que foram arrancados de seus contextos por um processo violento e colonial. Trazer essa discussão para a cidade é reconhecer essa violência, fortalecer o diálogo com os povos de terreiro e assumir que a reparação também é uma responsabilidade institucional”, afirma.

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