A maior área livre de comércio do mundo pode se tornar realidade nos próximos meses a partir da aprovação provisória do acordo entre Mercosul e a União Europeia pela maioria dos embaixadores europeus em Bruxelas, nesta sexta-feira. Com um mercado potencial de cerca de 700 milhões de pessoas, o tratado alavanca as exportações das principais produções do Estado e, especialmente, da Zona Sul, como carnes e grãos.
Com a ratificação do acordo — fato que ainda depende de diferentes tramitações na Europa —, as tarifas de importação sobre 91% das mercadorias comercializadas entre os dois blocos serão eliminadas. Na condição de maior economia do Mercosul, o Brasil é o principal beneficiado com a ampliação de mercados para o agronegócio e a indústria.
Conforme a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil), o acordo estabelece um mercado de quase US$ 22 trilhões, com potencial de incrementar as exportações brasileiras para a União Europeia em cerca de US$ 7 bilhões.
Levantamento da Federação da Agricultura do Estado do Rio Grande do Sul (Farsul) demonstra que a carne bovina liderou o volume de embarques para a Europa em 2025, com mais de 107,4 mil toneladas entre carcaças congeladas e resfriadas.
Em segundo lugar entre os produtos gaúchos enviados estão as aves, com 180 mil toneladas. Já o arroz fica em 6º lugar, com 60 mil toneladas exportadas para o Velho Continente.
Apesar de o acordo trazer perspectivas positivas para a economia gaúcha, o assessor de mercado internacional da Farsul, Renan Hein, adota tom de cautela e cita a fase preliminar das tratativas, além do protagonismo de outras produções do Mercosul, como a Argentina, o Uruguai e o Paraguai.
“É complicado regionalizar porque é um acordo de bloco comercial, mas o Rio Grande do Sul certamente tem potencial de se beneficiar, até porque temos outras exportações, que não só essas grandes do agronegócio, preparadas. Mas ainda não tivemos acesso ao texto final do acordo”, ressalta.
Dependência do mercado europeu
Já o economista e professor da Universidade Federal de Pelotas (UFPel) Marcelo Passos destaca que os produtos mais absorvidos pela União Europeia são justamente das cadeias agrícolas e agropecuárias, além de itens como laticínios, o que gera uma “dependência bastante grande”.
Para o especialista, o bloco pode superar Estados Unidos e até a China no volume de exportações do Brasil devido à maior facilidade de transporte.
“É mais fácil exportar do Nordeste para a União Europeia do que do Nordeste para Nova Iorque, por exemplo, ou para a China.”
Investimentos e importação
Outras vantagens sublinhadas por Passos são a possibilidade de o acordo atrair investimentos da União Europeia no Brasil, especialmente no Rio Grande do Sul, devido à proximidade gerada pela imigração de povos europeus.
“Esse tipo de afinidade cultural é levado em conta na hora de os europeus fazerem investimentos. Então, setores como tecnologia, indústria e agricultura podem ser beneficiados com mais investimentos vindos da Europa”, explica.
Além disso, o livre comércio facilita e barateia a importação, pelo Brasil e pelos outros países do Mercosul, de produtos industriais da Europa. “Algumas empresas gaúchas podem se beneficiar da troca de tecnologia e também de algumas práticas de produção da Europa”, acrescenta Passos.
Próximos passos
Na próxima segunda-feira, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deverá ir ao Paraguai ratificar o acordo com os países-membros do Mercosul.
As etapas subsequentes ainda pendentes incluem a aprovação do Parlamento Europeu para que a parte comercial possa avançar.