Por que as universidades estão se afastando do Sisu?

Opinião

Jarbas Tomaschewski

Jarbas Tomaschewski

Coordenador Editorial e de Projetos do A Hora do Sul

Por que as universidades estão se afastando do Sisu?

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No encerramento de 2025, as duas maiores universidades públicas da Zona Sul surpreenderam ao anunciar a reorganização na forma de ingresso de novos alunos. Não se trata do fim do uso do modelo oferecido pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu), que permanece nas Universidades Federal de Pelotas (UFPel) e Federal de Rio Grande (Furg). Mas não deixa de ser a sinalização de mudanças à modalidade que chega ao seu 16º ano no país e centralizou o acesso às instituições pela nota do Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
No caso da UFPel, sem reduzir as vagas ofertadas, a alteração refere-se exclusivamente à forma de ingresso no segundo semestre letivo. Deixará de ser feita pelo Sisu e será preenchida a partir da nota do Enem, via processo seletivo próprio da instituição. O formato irá considerar o aproveitamento de uma das cinco últimas edições do exame. Serão 15 cursos atingidos, num total de 531 vagas: Administração, Agronomia, Arquitetura e Urbanismo, Ciência da Computação, Design, Enfermagem, Gastronomia, Medicina, Medicina Veterinária, Meteorologia, Nutrição, Odontologia, Química Forense, Terapia Ocupacional e Zootecnia.

A UFPel comunicou que a decisão foi tomada após análise e debate “em diferentes instâncias da Administração Central da Universidade, incluindo a Pró-Reitoria de Ensino, o Gabinete da Reitoria e o Conselho Coordenador do Ensino, da Pesquisa e da Extensão (Cocepe), órgão responsável pela deliberação final”. Foram consideradas, também, as experiências de outras unidades federais frente aos desafios do modelo Sisu, “que concentra, em uma única edição anual, os ingressos para os dois semestres letivos”. A UFPel reconhece ainda que busca aprimorar o preenchimento das vagas e reduzir as desistências, com maior previsibilidade aos estudantes que chegam no segundo semestre.

No caso da Furg, a redistribuição das vagas permitirá reservar parte delas ao vestibular tradicional. “Quando a gente não preenche as vagas, nós abrimos o processo seletivo complementar. Com essa nova proposta, nós queremos deixar 30% das vagas para o vestibular e 70% para o Sisu. Ainda continuaremos participando do Sisu, por entender a importância de um processo unificado nacional”, disse a reitora Suzane Gonçalves.

Organizar processos seletivos próprios tem sido prática crescente no Brasil entre as universidades que experimentaram por uma década e meia o modelo criado pelo governo federal, hoje a principal porta de entrada na graduação. Vale lembrar que a participação no Sisu não é obrigatória. A busca por mais autonomia, a intenção de beneficiar candidatos regionais e o preenchimento de vagas remanescentes de forma mais flexível são apontados como fatores para esse “repensar” o acesso.

Ao longo do tempo, instituições como a Universidade de São Paulo (USP) — uma das mais prestigiadas do país —, a Universidade de Brasília (UnB), a Universidade Federal do Norte do Tocantins (UFNT), a Universidade Estadual do Tocantins (Unitins), a Universidade Federal de Rondônia (Unir), a Universidade Federal do Oeste do Pará (Ufopa) e o Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia de Rondônia (IFRO) abandonaram o Sisu e criaram modelos próprios de ingresso.

Em 2019, ao comunicar sua decisão, a UnB justificou a incompatibilidade entre seu calendário acadêmico e o que é estabelecido pelo MEC. Conforme a instituição, “o registro precisava ser feito em um prazo curtíssimo, o que sobrecarregava as áreas técnicas e entrava em conflito com outros processos seletivos da universidade”. Também argumentou o não preenchimento de todas as vagas oferecidas pelo Sisu, sendo necessárias várias chamadas, o que acabava prejudicando o início do semestre letivo; e o crescimento da evasão estudantil.

São mudanças em andamento que, a curto prazo, devem alterar o olhar das gestões para essa etapa fundamental na vida dos jovens em busca do sonho de se preparar para o mercado e planejar a vida a partir do início da graduação.

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