Pelotas é reconhecida nacionalmente como Capital do Doce, por conta de toda sua tradição doceira que passa pela produção dos ingredientes, o saber fazer sendo passado de geração em geração até a comercialização e a movimentação da economia local como um todo, a partir de eventos como a Fenadoce. Para além dos doces finos, Pelotas alcançou o patamar de referência na doçaria antes mesmo destes ganharem as bancas, com a produção de doces de frutas e compotas.
Infelizmente, a ação do tempo e a falta de incentivo colocam em risco a continuidade de uma das práticas que colocou a cidade como referência nesta culinária. Em 2018, as tradições doceiras de Pelotas foram reconhecidas como Patrimônio Imaterial pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). No entanto, o título é revisto a cada 10 anos pelo órgão e, caso não haja continuidade da prática na sua importância como antes, o reconhecimento pode ser perdido.
Esse alerta é feito pelo projeto Rota do Marmeleiro, que está sendo desenvolvido pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel) e ainda deve ser colocado em prática, unindo pesquisadores de diversas áreas na busca por estabelecer uma rota turística pelos municípios da Antiga Pelotas (Arroio do Padre, Capão do Leão, Morro Redondo, Pelotas e Turuçu). Além de reconhecer a tradição e impulsionar o desenvolvimento da mesma, o grupo pretende mapear os produtores e suas necessidades, de forma a garantir a continuidade da prática.
A ação leva o nome de uma das árvores frutíferas que está em extinção no Estado e que produz a matéria-prima para um dos doces mais tradicionais de Pelotas, que é o marmelo.
Como foi pensado o projeto da Rota do Marmeleiro?
Nós partimos de demandas, tanto da faculdade de nutrição, quanto do Museu do Doce e, através da Pró-Reitoria de Extensão, estruturamos o projeto. Na coordenação estou eu e a professora Chirle Raphaelli, que é da faculdade de nutrição, junto com o professor Felipe Herrmann da Pró-reitoria. Nós apresentamos essas demandas para a universidade e lá se entendeu a importância do que estamos projetando para desenvolver Pelotas e a região, e começamos a trabalhar. São vários cursos que também estão com a gente, como a agronomia e museologia. É um projeto muito grande que estamos começando a trabalhar, já lançamos com o objetivo que possamos trabalhar esse patrimônio cultural que temos.
Qual o objetivo do projeto e como as cidades serão englobadas nele?
É um projeto bem amplo, nos denominados de “marmeleiro” por ser uma árvore que está praticamente em extinção no Rio Grande do Sul, são raros os produtores, a gente vem importando do Uruguai coisas que a gente tinha, normalmente, na nossa volta e que hoje já não temos mais. A rota é pensada em todas as árvores frutíferas aos quais os nossos doces de fruta estão ligados. A ideia é termos de novo essas mudas, novos pomares, porque hoje a gente já não vê na região e nem na chamada Antiga Pelotas. Nessa região a gente pretende trabalhar com as prefeituras, o que é extremamente importante e o chamamento que a gente fez para apresentar a Rota do Marmeleiro foi para os entes públicos e outros interessados mostrando o potencial dessa produção e desta rota, de criarmos uma rota turística que valoriza os nossos produtores rurais, para que voltem suas produções de pomares, pois, infelizmente eles estão sendo substituídos, principalmente o pêssego, por outras produções, então estamos perdendo espaço de árvores frutíferas.
Quais são os principais problemas enfrentados pelos produtores e doceiros?
A nossa principal característica vem se perdendo. Alguns doceiros desses doces de frutas vem afirmando que estão perdendo a matéria-prima para a produção dos seus doces. Nós temos duas tradições de doces, uma já está bem desenvolvida que é a de doces finos (ou doces de bandeja), e temos a dos doces de frutas que têm sido relegados a um segundo plano. Então, se a gente não trabalhar para isso, se não valorizarmos tanto os produtores da fruta, como os dos doces, vamos acabar perdendo a tradição, porque não é que as pessoas não comem, é porque falta valorização. A gente precisa pensar nessas pessoas, não tem mercado para vender, então a gente precisa pensar também na valorização de espaços para que eles possam produzir, ter emprego. A ideia é primeiro a gente conquistar novos produtores, a partir de diversas parcerias, aumentarmos a área de produção de árvores frutíferas e também incentivarmos que se faça os doces de fruta, que tenha mercado para vender.
Como a comunidade vai poder acompanhar a Rota do Marmeleiro?
Nós estamos no início e esse é mais do que um projeto, é um programa que será trabalhado horizontalmente, junto com as pessoas. Nosso primeiro passo é fazer esse mapeamento de quem está produzindo para a gente poder saber por onde que irá andar essa rota, o que iremos apresentar. Começaremos a mapear já no começo deste ano, isso é fundamental para que a gente possa partir para os próximos passos, que é a produção de mudas e de novos pomares, temos que trabalhar com os novos produtores também, de formar essas pessoas que tenham o interesse de começar a produzir. A universidade e a Emater de Pelotas se colocaram à disposição, esse é o nosso primeiro ponto, fazer uma espécie de inventário das pessoas que trabalham e irão trabalhar com as árvores frutíferas e com os doces de frutas nessa região da Antiga Pelotas.