Linda (Rose Byrne) está sendo mastigada pelo mundo ao seu redor. Ignorada ou constantemente subestimada por todos à sua volta, ela tenta equilibrar o dia a dia como psicóloga em uma clínica que divide com um colega prepotente, que também é seu analista. Como se isso não bastasse, precisa lidar com a ausência do marido, que está em uma longa viagem, com a filha doente e teimosa e com o sumiço repentino de uma de suas pacientes — que também parece enfrentar as agruras da maternidade. Para coroar o caos, um vazamento no apartamento de cima abre um buraco em seu teto. Como diriam alguns, o prato de Linda está cheio, e ela teria toda razão para estar farta.
Com um título carismático e instigante, Se eu tivesse pernas, te chutaria (2025), de Mary Bronstein, é uma sucessão de desventuras e frustrações que reflete de forma contundente sobre as pressões e responsabilidades impostas às mulheres — especialmente às mães — diante dos clichês da maternidade. Lembrando, em alguns momentos, Canina (2024), de Marielle Heller, Bronstein desenvolve seu filme de maneira mais completa e com menos alegorias, embora ainda dialogue com esse universo de testes constantes aos quais as mulheres são submetidas. A diretora e roteirista aposta em uma linguagem econômica e sutil: a câmera permanece quase sempre em close-up extremo no rosto de Byrne, criando uma sensação de claustrofobia, enquanto o marido e a filha existem apenas como vozes ao telefone ou fora de quadro. Só vemos seus rostos ao final — um recurso que reforça o isolamento e a pressão vividos pela personagem no ambiente familiar ao longo do filme.
Aliás, todas essas pressões atravessam o rosto de Rose Byrne em uma das melhores atuações do ano. Com uma filmografia marcante em comédias norte-americanas como Missão Madrinha de Casamento (2011) e Vizinhos (2014), a atriz australiana demonstra pleno domínio ao construir uma personagem completamente fora de controle, arrastada pelos acontecimentos. Byrne encontra com precisão o equilíbrio entre os tons dramáticos e cômicos. A vitória como Melhor Atriz no Festival de Berlim do ano passado não é por acaso: o filme é inteiramente dela.