Ao longo de 2025, a Universidade Federal de Pelotas (UFPel) intensificou sua aproximação com a região por meio da Pró-Reitoria de Extensão e Cultura (Prec), responsável por 1.350 ações no ano. Nesse contexto, foi estruturado o projeto UFPel no Território – Estratégias para o Desenvolvimento Sustentável, com o objetivo de promover uma atuação contínua e organizada junto às demandas da Zona Sul.
Segundo o coordenador de Arte, Cultura e Patrimônio, Matheus Cruz, a universidade já mantinha relações com o território, mas de forma pulverizada e sem identidade institucional clara. A partir desse diagnóstico, foram criadas iniciativas como o Café com Extensão e reativado o conselho interno.
Entre os temas debatidos está a curricularização da extensão. De acordo com o pró-reitor de Extensão e Cultura, Fábio Lima, cada currículo precisa ter, no mínimo, 10% da carga horária dedicada à extensão, em contato direto com a comunidade. “As atividades se estruturam a partir daquilo que é necessário para a região, que conecta o estudante ao território e o faz enxergar os problemas de forma contextualizada. Isso representa uma valorização do que é público”, afirma.
A UFPel conta atualmente com 101 cursos e cerca de 18 mil estudantes. Apesar de não haver uma mensuração exata, a estimativa é de que uma parcela expressiva esteja envolvida em ações de extensão. “Quando fechamos os relatórios, vemos que muitas contam com até 20 extensionistas. Isso faz com que praticamente a totalidade dos estudantes esteja envolvida de alguma forma”, destaca Lima.
As ações estão distribuídas em oito eixos e incluem projetos como o Cine UFPel, cursinhos populares, Hortas Urbanas, Barraca da Saúde, e iniciativas de regularização fundiária. Também se destaca a valorização do patrimônio cultural e dos saberes tradicionais. “Entendemos que os conhecimentos tradicionais também podem – e devem – estar dentro da universidade”, afirma Cruz. Iniciativas como o Espaço Árvore Popular e a parceria com o Museu do Hip Hop reforçam essa aproximação. “Não é levar conhecimento pronto, mas dialogar e fomentar o debate científico a partir do conhecimento popular”, destaca.
Geoparque e projetos estratégicos
Entre os projetos, destaca-se o Geoparque – Paisagem das Águas, que reúne iniciativas em diferentes áreas do conhecimento. “Podemos trabalhar questões geológicas, culturais, ambientais e de sustentabilidade”, afirma o pró-reitor. O projeto envolve os municípios de Pelotas, Rio Grande, São Lourenço do Sul, Arroio do Padre, Capão do Leão, São José do Norte e Turuçu, valorizando as características ligadas às águas, ao bioma Pampa e às culturas locais.
Para a implementação, é necessário atender a 101 critérios estabelecidos pela Unesco, que incluem empregabilidade, preservação cultural e atenção a comunidades tradicionais. O trabalho é interdisciplinar e envolve pesquisadores e estudantes da UFPel. Um exemplo de iniciativa nesse contexto é a Rota do Marmelo – O Doce Sabor da História, desenvolvida junto a comunidades quilombolas às margens do Arroio Quilombo, aliando preservação ambiental e geração de renda.
A proposta prevê ainda a criação de um selo regional para agregar valor a produtos locais. “Esses produtos podem ganhar agregação de valor por estarem inseridos em uma região com essa característica única”, destaca. O próximo passo será a definição da governança, que deverá ficar a cargo das próprias comunidades. “Quem realmente faz a governança são as pessoas que estão na ponta.”
Orçamento
Apesar dos avanços, a instituição enfrenta restrições orçamentárias. Com a aprovação do Projeto de Lei Orçamentária Anual (PLOA) no Congresso Nacional, a UFPel deve sofrer um corte de cerca de R$ 6,4 milhões em 2026. “Em uma região como a nossa, esse valor faz uma diferença enorme”, afirma Cruz.
Mesmo diante das dificuldades orçamentárias, a universidade segue buscando alternativas para manter sua atuação no território. “Conseguimos atuar nas lacunas do Estado, desenvolvendo projetos a partir de necessidades reais”, afirma. “Esse é o papel da universidade no território: contribuir para o desenvolvimento econômico, social e ambiental”, conclui o pró-reitor.
