Os andaimes e tapumes em frente a prédios e igrejas emblemáticas da paisagem arquitetônica de Pelotas dão o tom do momento que a cidade vive: um ciclo intenso de restauros para a conservação do patrimônio histórico e cultural. No momento, sete imóveis estão em obras para a recuperação de suas infraestruturas. Para o próximo ano, pelo menos outros cinco bens devem entrar em processo de recuperação, enquanto os já em intervenção avançam para as etapas seguintes.
Somente no Centro Histórico são três edificações sendo restauradas: o Theatro Sete de Abril, a Bibliotheca Pública e o Grande Hotel. E, em 2026, mais dois casarões entrarão em obras para futuramente abrir as portas ao público e sediar museus. São eles a
Casa 6 (sede da Secult/Museu da Cidade) e a Casa 2 (Museu Etnográfico na Colônia Maciel). A Casa 8, atual Museu do Doce, também passará por intervenções.
Tendo a praça Coronel Pedro Osório como ponto de referência, em direção ao bairro Porto estão em recuperação a cobertura da Catedral Anglicana do Redentor, conhecida como Igreja Cabeluda, e a da Paróquia Sagrado Coração, a Igreja do Porto. No Centro, o Conservatório de Música da UFPel entra na fase final de restauração. Já a poucas quadras dali, na rua Padre Anchieta, a Catedral São Francisco de Paula teve o assoalho concluído e, em breve, terá sua cúpula restaurada.
As etapas
Antes que o primeiro trabalhador chegue ao local para iniciar a obra, há um longo percurso até que o patrimônio possa ser restaurado. Tudo começa com a elaboração do projeto por arquitetos e engenheiros civis. Em seguida, vem uma etapa decisiva: a captação de recursos, geralmente por meio de leis de incentivo à cultura. Mesmo após a aprovação, há ainda o tempo de espera até que o recurso seja liberado. Além disso, cada fase do restauro exige um novo projeto e uma nova rodada de captação de verbas.
O tempo de obra de uma restauração também é um fator diferenciado. Proprietária de uma empresa que executa a gestão de restauros, Josiele Castro explica que, enquanto uma parede atual só precisa de cimento para ser rebocada, nos prédios centenários é necessário um estudo sobre o material utilizado na construção, o teor aplicado e mais uma série de especificidades.
Com isso, o período de obra se estende bem mais em comparação às intervenções contemporâneas. “Tem que fazer um estudo de qual a concentração de cal tu vai usar na parede, que veio antes de chegar o cimento na cidade, e que, se tu colocar na concentração errada, ela vai cair. Então o restauro vai muito além do que é o seu objeto; ele é relativo a ser vital”, diz. Da mesma forma, também exige um volume de recursos expressivamente maior.
Com sérias infiltrações na cobertura, a terceira fase do projeto de restauro do Conservatório de Música, tocado pela empresa de Josiele, teve investimento de mais de R$ 1,4 milhão pela Lei de Incentivo à Cultura (LIC) do governo do Estado. O prédio está em obras desde 2022 e deverá ser entregue em dezembro. “Nessa terceira fase, terminaram todas as questões estruturais que apresentavam algum risco ao patrimônio. Ele tinha um telhado que estava caindo; não está mais, foi refeito. A fachada estava toda caindo em pedaços, detritos; não está mais”, conta.
Economicidade
A produtora cultural destaca que ainda faltarão algumas questões a serem sanadas no Conservatório; no entanto, são obras que podem ser realizadas aos poucos pelos próprios gestores do prédio. Segundo Josiele, para atender ao princípio da economicidade, os projetos da empresa são direcionados a resolver apenas os problemas de infraestrutura. “O mínimo de etapas possíveis que contemplem o máximo do que é vital e extremamente necessário. E lembrar que a própria instituição tem condições, no momento em que tu resolves a parte mais complicada, de ir mantendo.”
Momento único e engajamento da comunidade
Com mais de 25 anos de experiência no campo da preservação do patrimônio, a arquiteta Simone Neutzling enfatiza que Pelotas vive um “momento único”, com uma série de obras realizadas por meio da mobilização da própria comunidade. À frente de uma série de restauros da Catedral São Francisco de Paula, realizados ao longo de cerca de 19 anos, a equipe dela entregou recentemente a recuperação de todo o assoalho da igreja. Para o ano que vem, a intervenção será na área externa da famosa cúpula da Catedral.
Durante todo esse período, o processo da restauração, aliado ao envolvimento da comunidade e às diversas ações de educação patrimonial para conscientizar a cada etapa sobre a importância histórica da igreja, é essencial para a arquiteta.
Para Simone, a restauração ser realizada em processos — aliado ao envolvimento da comunidade e às diversas ações de educação patrimonial que, a cada etapa, reforçam a importância histórica da igreja — é fundamental para a conservação do bem. “Vai cada vez mais conscientizando as pessoas e gerando esse sentimento de pertencimento. Eu acho que esse movimento de a gente percorrer a cidade e ver um prédio sendo restaurado mexe também com a estima do pelotense”, diz.
Para engajar as pessoas e auxiliar na formação de profissionais da construção civil para projetos de recuperação do patrimônio, a cada sábado a empresa de Simone realiza oficinas de técnicas de restauro abertas ao público.
“Com um detalhe a respeito de materiais e de processos construtivos, as pessoas vão entendendo mais a importância e o valor desses prédios. Construídos com materiais simples, mas de boa qualidade, já têm 100 anos. É só fazer uma conservação adequada e eles vão durar mais 100 anos”, destaca.
Conservação
Enquanto executa a restauração, a arquiteta salienta a importância de conscientizar sobre a necessidade da conservação, tanto pelos usuários quanto pelos gestores dos patrimônios.
“Quando a gente fala de conservação do patrimônio — porque todas as ações são de conservação do patrimônio — a pior das ações é a restauração. Porque, se a gente precisa restaurar, é porque a gente não conservou.”
Outra forma de valorizar os bens históricos é por meio da ocupação pelos usuários. Diante disso, a arquiteta comemora que, em breve, os fiéis da Paróquia Sagrado Coração poderão voltar a utilizar a igreja, após quase cinco anos de recuperação devido a um ciclone. “A pior coisa que pode acontecer para um prédio é ele ficar desocupado. Então, cada vez mais, a gente tem que promover e fomentar a ocupação desses prédios.”
Sobre a continuidade da restauração do marco zero de Pelotas, a Catedral São Francisco de Paula, e as outras intervenções previstas em diversos patrimônios para 2026, Simone declara: “Nós estamos no presente, mas temos que olhar para o passado para projetar um futuro. E quem não conhece o seu passado, como vai conseguir projetar um futuro?”
Patrimônio em restauro
- Catedral São Francisco de Paula
- Catedral Anglicana do Redentor (Igreja Cabeluda)
- Paróquia Sagrado Coração de Jesus (Igreja do Porto)
- Grande Hotel
- Conservatório de Música da UFPel
- Biblioteca Pública
- Theatro Sete de Abril
- Museu da Baronesa
Patrimônios com início de restauro previsto para 2026
- Charqueada São João
- Asilo de Mendigos de Pelotas
- Instituto de Menores Dom Antônio Zattera
- Museu de Arte Leopoldo Gotuzzo (Malg)
- Casarões (2, 6 e 8)
