Amizade

Opinião

Helena Tomaschewski

Helena Tomaschewski

Estudante de Direito

Amizade

Por

Eu tive algumas surpresas com a chegada da vida adulta. Diversas quebras de expectativas. O fato de fingir estar dormindo no carro ao chegar em casa e ninguém me carregar até a cama ainda me perturba. Ter que escolher o que fazer da vida. Trabalhar. Tomar decisões sérias e enfrentar as consequências.

Mas a minha quebra de expectativa preferida foi quando percebi que as minhas primeiras melhores amigas se manteriam minhas melhores amigas na vida adulta. As meninas que me viram perder dentes são as mesmas que me viram perder o BV — boca virgem, para a tradução aos mais velhos — e, posteriormente, celebramos juntas a entrada coletiva de cada uma na faculdade.

Nada contra as novas e maravilhosas amizades que fiz ao longo da jornada, mas poucas pessoas me viram de cabelo rosa e piercing no nariz aos quinze anos — graças a Deus. A adolescência nos leva a ter essas pessoas como suporte e trocamos o papai e a mamãe pelas chamadas de vídeo às duas da manhã com as amigas quando algo ruim acontece.

A adolescência também nos faz perder a noção do ridículo. Faz parte, e hoje nos divertimos com as lembranças. Era segunda-feira, uma da tarde, estávamos no Ensino Médio, quando recebo a ligação da mãe de uma dessas amigas. Prontamente, atendo o telefone e recebo pouquíssimas informações, do tipo:

— Heleninha, vem para cá.

— Mas o que aconteceu?

— Eu não sei, ela não fala, mas também não para de chorar. Acho que aconteceu algo feio na escola, não sei.

Fui correndo pedir para minha mãe me deixar na casa dela, esperando pelo pior. Ela me levou calma, como a sábia que é, dizendo não ser algo tão sério. Mas era. Ou pelo menos, para a “eu de 17 anos”, era megassério. Subo as escadas, entro no quarto dela e vejo minha amiga sentada na cama, chorando como se o mundo tivesse acabado. Ao me ver, ela chora ainda mais. Era muito pior do que eu pensava. Briga feia com o namorado. Choramos juntas por um menino do qual atualmente temos pouquíssimas informações. Mas a lembrança dessa história, que era para ser triste, hoje me traz muito carinho.

Eu fui escolhida como a única pessoa para aquela hora difícil. Quando estive hospitalizada em 2025, choramos juntas de novo, daquele mesmo jeito. Não sei dizer ainda se fui sortuda ou se a “eu de 5 anos” tinha o poder de escolher amizades sabiamente, mas ela segue sendo a única pessoa para quem eu quero ligar às duas da manhã quando algo ruim acontece.

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