Desde 2016, a Polícia Civil do Rio Grande do Sul atua diretamente com jovens através do programa Papo de Responsa. A proposta tem se tornado uma ponte importante entre a segurança pública e a comunidade escolar. Em Pelotas, quem conduz esse trabalho são as escrivãs Alessandra Bueno Salazar e Luana Cavedon Rolim, ambas da Delegacia de Proteção à Criança e ao Adolescente (DPCA. Elas visitam escolas para dialogar com estudantes a partir do sexto ano, abordando temas que vão desde responsabilidade criminal até crimes cibernéticos, abuso sexual, pedofilia, bullying e uso de drogas. Com uma linguagem acessível e foco na prevenção, o programa busca alertar crianças e adolescentes sobre riscos reais e fortalecer a confiança na polícia.
Como surgiu o programa Papo de Responsa?
Alessandra e Luana: O Papo de Responsa foi criado pelo policial civil Beto Chaves, no Rio de Janeiro. Após anos atuando em confrontos armados em comunidades, ele percebeu que muitos adolescentes mortos em tiroteios tinham apenas 13 ou 14 anos. A partir disso, desenvolveu um programa de prevenção voltado às escolas, entendendo que ali está o futuro e que é preciso dialogar com crianças e jovens sobre temas que os colocam em risco. Desde então, ele ministra o curso para policiais de vários estados, incluindo o Rio Grande do Sul
Que temas são abordados nas escolas e como é feita a abordagem?
Alessandra e Luana: Tratamos de responsabilidade criminal, bullying, cyberbullying, abuso sexual, assédio, pedofilia, uso e tráfico de drogas e, sobretudo, crimes na internet, considerados hoje o maior risco entre os jovens. Explicamos de forma direta e com a linguagem própria do público, sempre reforçando que o programa é um diálogo, não uma palestra. A comunicação é adaptada conforme a faixa etária: para séries menores, alguns assuntos sensíveis são tratados com mais delicadeza; já com adolescentes, o debate é mais profundo e aberto.
Quais são as principais dúvidas e percepções dos estudantes sobre a polícia?
Alessandra e Luana: muitos jovens chegam ao encontro com uma visão negativa da polícia, marcada por frases como “a polícia é corrupta” ou “a polícia gosta de dar tiro”. A partir do diálogo, explicamos a rotina da profissão, os limites legais e o compromisso ético da corporação. Também reforçamos que, antes de sermos policiais, somos pessoas, mães, filhas e cidadãs, que desejam apenas retornar para casa em segurança. Os encontros muitas vezes ajudam a desfazer estereótipos e aproximar a comunidade da instituição.
Como as escolas podem solicitar o Papo de Responsa e qual é o alcance do programa na região?
Alessandra e Luana: As solicitações são feitas via Instagram oficial (@papoderesponsarsoficial), onde há um formulário de inscrição. O pedido chega à coordenação em Porto Alegre e, depois, é enviado para nós, que organizamos as agendas. Em 2025, foram mais de 80 solicitações somente na região sul, mas como atuamos em investigações na delegacia, conseguimos atender de dois a quatro papos por semana. Em torno de 40 escolas foram atendidas neste ciclo, e outras já estão agendadas para 2026.
Que impacto o programa já teve e como os estudantes podem buscar ajuda?
Alessandra e Luana: Após diversos encontros, estudantes se aproximaram para revelar situações de abuso sexual, muitas vezes sofridas dentro de casa. Isso demonstra a importância do ambiente de confiança criado pelo programa. A palavra da vítima tem grande peso nas investigações e denunciar pode evitar novos casos. Para quem não se sente seguro para falar com a escola, família ou polícia, há o Disque 100, canal anônimo de Direitos Humanos que recebe denúncias.
Que mensagem vocês deixam para essa geração?
Luana: quando terminamos a Academia de Polícia, ganhamos um colete, uma arma, uma algema e uma carteirinha funcional. Os alunos sempre se empolgam quando veem a arma. Ok, que bom, pois jogam a GTA, Free Fire, mas argumentamos com eles que se gostam tanto, então que venham para o lado bom da força. Quem gosta da polícia, venha para o nosso lado. Quem está passando por alguma coisa, liga para o Disque 100. Quem quiser o Papo Responsa nas escolas, preencha o formulário.
Alessandra: A gente tenta fazer esse trabalho de formiguinha, ajudando. Para os jovens, saber o real significado do que é empatia, a gente não vai ter tanta coisa ruim que está acontecendo dentro da escola, fora, dentro de casa.