Trigo perde espaço em Pelotas em razão do baixo preço e clima

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Trigo perde espaço em Pelotas em razão do baixo preço e clima

Área plantada recua para 60 hectares; baixa remuneração não cobre custos e produtores buscam alternativas

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Atualizado terça-feira,
11 de Novembro de 2025 às 11:24

Trigo perde espaço em Pelotas em razão do baixo preço e clima
No Estado, a área destinada ao cereal também encolheu 13,7% em relação à safra anterior (Foto: Luiz Henrique Magnante)

O cultivo do trigo vem encolhendo em Pelotas diante do preço pouco atrativo pago pela saca e das condições climáticas desfavoráveis. A área plantada, que já foi significativa no passado, é hoje de 60 hectares, segundo o engenheiro-agrônomo e extensionista da Emater, Luciano Ossanes, em entrevista para o programa da Rádio Pelotense, Debate Regional.

O cenário local acompanha o movimento estadual: a produção no Rio Grande do Sul deve cair 6,3% em 2025, enquanto a área destinada ao cereal encolheu 13,7% em relação à safra anterior, conforme estimativas da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab).

A retração está ligada principalmente à baixa remuneração. O preço médio de R$ 58,11 pela saca de 60 quilos não cobre os custos de produção, segundo Ossanes. Com a cotação abaixo do preço mínimo nacional, o cereal tornou-se alternativa apenas para compor o sistema produtivo, ajudando na rotação de culturas e no controle de doenças e plantas daninhas.

Além do desestímulo econômico, o clima tem sido outro entrave. Por ser mais úmida do que outras regiões produtoras do Estado, Pelotas enfrenta maior dificuldade para garantir qualidade de grão, especialmente na fase de floração. A principal doença registrada na região é a giberela, que compromete o rendimento e o pH do trigo de pão — aquele apto à panificação. Quando não atinge essa classificação, o produto é destinado a rações e outras finalidades de menor valor agregado.

Região mantém expressão, mas busca alternativas

A região Sul ainda mantém áreas expressivas de cultivo, com destaque para Canguçu, com cerca de 2 mil hectares, e Pedras Altas, com 1,6 mil hectares. No total, 27% das áreas já foram colhidas. O plantio ocorre entre maio e junho e, quando a colheita atrasa, pode prejudicar a implantação da soja.

Apesar da queda, Ossanes reforça que o trigo é um cereal estratégico para o Rio Grande do Sul, principalmente pela cobertura de solo no inverno e pela quebra do ciclo de doenças, favorecendo o cultivo de verão.

Brasil dependente de importações

Mesmo com o potencial produtivo, o Brasil segue dependente do trigo externo e abastece apenas 20% de sua necessidade interna. A competitividade internacional, sobretudo dos vizinhos argentinos, torna difícil concorrer em preço e qualidade.

Diante desse cenário, o extensionista defende política pública mais robusta para proteger a produção nacional e garantir previsibilidade ao produtor. Embora a Política de Garantia de Preços Mínimos ajude, ainda é insuficiente para cobrir custos e incentivar a expansão.
Para tentar reduzir os prejuízos, a Conab liberou R$ 67 milhões para apoiar a comercialização de 250 mil toneladas nos estados do Rio Grande do Sul e Paraná. No RS, o prêmio estimado é de R$ 20,40 por saca — uma tentativa de reequilibrar o mercado e assegurar renda aos agricultores, segundo o presidente da companhia, Edegar Pretto.

Canola pode ser alternativa

Com o trigo em baixa, culturas alternativas também ganham espaço. Em Pelotas, três produtores cultivam 111 hectares de canola, com colheita positiva que teve renda superior aos custos. A oleaginosa tem vantagem por permitir uso para biocombustível e apresenta preço atrativo, superior ao da soja.

Apesar disso, Ossanes alerta que nenhuma delas substitui totalmente os benefícios agronômicos do trigo. A canola não quebra o ciclo de doenças com a mesma eficiência, podendo impactar a soja futuramente.

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