Dois acidentes fatais registrados na última semana voltam a expor a vulnerabilidade de quem circula no trânsito de Pelotas, especialmente os pedestres. As vítimas, ambas idosas, morreram em atropelamentos ocorridos em diferentes avenidas da cidade: uma na Juscelino Kubitschek e outra na Ildefonso Simões Lopes. Segundo dados do Detran/RS, em outubro Pelotas registrava 25 mortes no trânsito. Após os acidentes, o número já subiu em pelo menos duas.
No dia 4 de novembro, seria apenas uma terça-feira comum para Ismar Fouchy, de 84 anos. Isso mudou quando ele retornava da feira de rua na avenida Dom Joaquim, onde trabalhava, por volta das 19h. No trajeto, o idoso foi atingido por uma motocicleta enquanto atravessava a avenida Juscelino Kubitschek, próximo ao cruzamento com a Doutor Cláudio Manoel da Costa. O trecho não possui faixa de pedestres, mas a velocidade dos veículos que circulam por ali é alta, segundo moradores. O idoso não resistiu aos ferimentos.
Três dias depois, na sexta-feira (7), Margarida Tavares da Silva, de 79 anos, morreu atropelada por um táxi enquanto cruzava a faixa de pedestres em frente à Escola Joaquim Nabuco, na avenida Ildefonso Simões Lopes, no bairro Três Vendas. O motorista fugiu do local sem prestar socorro. O caso é investigado pela Polícia Civil como homicídio doloso na direção de veículo automotor. Ontem o motorista foi ouvido pela Civil, mas o veículo ainda não foi encontrado.
Com os dois novos casos, Pelotas soma ao menos 27 mortes no trânsito em 2025. Dados do Detran/RS, atualizados até outubro, indicavam 25 vítimas. Dentre estes casos, 18 foram fatalidades em vias municipais, sete em rodovias federais e nenhuma em estradas estaduais. Entre os mortos nas vias urbanas estavam 11 motociclistas, quatro pedestres e dois ciclistas. Após os casos recentes, o número de pedestres já subiu pela metade.
“O mais frágil é o pedestre”
O secretário de Transportes e Trânsito, Cláudio Montanelli avalia as mortes com “muita tristeza e preocupação” e reforça que a atenção e a consciência dos motoristas continuam sendo um dos principais desafios. “O mais frágil de todos é o pedestre, e a gente precisa ter atenção redobrada, especialmente em condições adversas, como o temporal de sexta-feira”, completa.
O secretário cita a importância de atitudes simples por parte dos pedestres e condutores. Segundo ele, o pedestre deve fazer um gesto antes de atravessar a rua, para evitar acidentes. A prática serve como um alerta adicional em vias movimentadas. “É importante que o pedestre estenda a mão, faça sinal de que vai atravessar. Isso alerta o motorista”, reforça.

Secretário de Transporte e Trânsito, Claudio Montanelli. (Foto: João Pedro Goulart)
Ações de conscientização
O titular da pasta também destaca que o município tem investido em fiscalização e educação para o trânsito, com ações voltadas principalmente às crianças e aos estudantes, como o caso da Escolinha de Trânsito. Para Montanelli, “é mais fácil educar uma criança do que um adulto que já tem vícios no trânsito”.
Novas intervenções?
Sobre o local do acidente na avenida Juscelino Kubitschek, Montanelli afirma que o departamento técnico da secretaria vai avaliar a possibilidade de novas intervenções. “Se for preciso segurar o trânsito com quebra-molas ou semáforo, vamos fazer o que tiver que ser feito para garantir a segurança”, conclui.
Pintura viária
Na manhã de segunda-feira (10), o secretário acompanhou um trabalho de pintura de faixas na rua Félix da Cunha e comentou sobre os recentes acidentes. Segundo ele, a prefeitura vem reforçando a sinalização, especialmente em áreas com grande circulação de pedestres. “Estamos tentando revitalizar todas as faixas de segurança, sobretudo as que ficam em frente a escolas e instituições de saúde”, afirma.
Cultura centrada no automóvel
Para a doutora em Engenharia de Produção e Transportes da UFPel, Raquel Holz, os dois casos recentes expõem um problema estrutural e cultural no trânsito da cidade. A lógica ainda é centrada no automóvel, com pressa, desatenção e pouca empatia com os mais vulneráveis. “Ainda convivemos com uma cultura centrada no automóvel”, afirma.

doutora em Engenharia de Produção e Transportes da UFPel, Raquel Holz. (Foto: Universidade Federal do Pelotas)
Ela comenta que, para reduzir riscos, seria necessário adotar princípios como os da Visão Zero, política sueca que parte do entendimento de que nenhuma morte no trânsito é aceitável e propõe um sistema viário que perdoe erros humanos, priorizando a segurança sobre a fluidez. “O que são alguns minutos de “perda”? Você escolheria “perder alguns minutos” no trânsito ou perder a vida? […] Trazer essa lógica para Pelotas significa pensar o trânsito de forma mais humana, em que o pedestre seja prioridade”.
