Crimes virtuais fazem 215 vítimas por dia no Estado

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Crimes virtuais fazem 215 vítimas por dia no Estado

Mesmo em queda, golpes de estelionatários, principalmente os cibernéticos, apresentam números assustadores

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Atualizado sexta-feira,
29 de Agosto de 2025 às 09:56

Crimes virtuais fazem 215 vítimas por dia no Estado
Crimes no ambiente digital estão cada vez mais sofisticados (Foto: Jô Folha)

“Minha filha. Já te libertaram? Depositei os R$ 1 mil que pediram.” Esse é o relato de uma mãe desesperada após receber a ligação de supostos sequestradores que estariam com a filha da vítima. Para libertá-la, a condição era depositar R$ 200 mil. Mas a aposentada, que mora nas Três Vendas, tinha uma pequena reserva que foi suficiente para os golpistas.

A filha, que prefere não se identificar, diz sentir uma mistura de sentimentos, pois percebeu que a mãe estava amedrontada e sem condições emocionais de desconfiar que era golpe. De janeiro a julho de 2025, a Secretaria de Segurança Pública do Estado registrou uma média de 215 golpes de estelionato por dia.

A tipificação, dentro da estatística estadual, não discrimina os tipos de estelionato eletrônico. Porém, pelos registros da Delegacia de Polícia de Pronto Atendimento (DPPA) de Pelotas, a maioria se refere a crimes cibernéticos, como perfis falsos e invasão de contas bancárias. É um tipo de crime que facilita a ação dos criminosos, já que dispensa a presença física e se baseia em manipulação psicológica. Em Pelotas, a média é de quatro vítimas por dia, e o total já passa da metade dos registros de 2024.

A Polícia Civil afirma estar equipada para combater esse tipo de crime e inaugurou, neste mês, o Departamento Estadual de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DERCC), em Porto Alegre. No interior, no entanto, ainda não há previsão de instalação de delegacias especializadas. O caso da vítima do falso sequestro, em Pelotas, será investigado, mas levará mais tempo. Enquanto isso, a aposentada, que neste domingo completa 78 anos, busca forças para se restabelecer do trauma e não terá o que comemorar no aniversário. “Ela até deixou de comer. É outra pessoa. Está acuada, com medo”, relata a filha, ainda emocionada.

Crime de cara nova

O especialista em psiquiatria, doutor Eduardo Brod Mendez, conta que os golpes antigos, como ligações com vozes simuladas de familiares sequestrados, continuam circulando em Pelotas, mas com novas roupagens. Hoje, os estelionatários não precisam mais sair às ruas: atuam na internet, de dentro de presídios ou até mesmo de casa. Mendez explica que os criminosos exploram brechas emocionais das vítimas, atingindo a “parte mais impulsiva” do ser humano. “Eles pegam no contrapé, exploram o desespero de quem pensa estar ajudando um filho ou parente em perigo”.

Medidas de enfrentamento

Diante do aumento expressivo dos golpes virtuais no Estado, a DERCC, coordenada pelo delegado Eibert Henriques de Sena Moreira Neto, foi oficializada em abril, por decreto do governo estadual, e tem atribuição de atuar em todo o território gaúcho. O delegado explica que a proposta é investigar dois grandes eixos: os estelionatários virtuais, que configuram crimes patrimoniais praticados de forma eletrônica, e os crimes cibernéticos próprios, como ataques a dispositivos e sistemas digitais.

O trabalho é de alcance estadual. “Diariamente recebemos todas as ocorrências registradas no Rio Grande do Sul referentes a estelionatos. Fazemos varreduras e cruzamos informações para identificar grupos criminosos com atuação macro, que atingem vítimas não apenas na capital, mas também no interior”, explica o diretor.

Com a nova estrutura, a Polícia Civil busca aumentar o poder de investigação e resposta frente a crimes que, cada vez mais, se sofisticam no ambiente digital. O conselheiro superior da Polícia Civil, mestre e doutor em Direito e especialista em Investigação Digital, delegado Emerson Wendt, avalia que o Brasil vive um processo acelerado de expansão das estruturas policiais voltadas ao enfrentamento dos crimes cibernéticos.

Segundo ele, esse movimento ganhou força a partir de 2012, com a sanção da Lei 12.735, aprovada em conjunto com a Lei Carolina Dieckmann, que determinou a criação de órgãos especializados em investigação digital.

Evolução

Em relação à legislação, Wendt lembra que, nos últimos anos, foram criadas diversas tipificações penais voltadas ao ambiente digital, embora nem sempre discriminadas nas estatísticas oficiais. Além do estelionato eletrônico, incluído no Código Penal em 2021, estão previstos crimes como invasão de dispositivo informático (2012), cyberstalking (2021), cyberbullying (2024) e a divulgação não consentida de imagens íntimas (2018). Muitas dessas normas, segundo ele, têm foco especial na proteção de mulheres, embora sejam aplicáveis a qualquer cidadão.

Na avaliação do psiquiatra Eduardo Brod Mendez, as redes sociais ampliam o risco, pois informações pessoais expostas funcionam como munição para fraudes cada vez mais sofisticadas. Perfis falsos, supostos pedidos de ajuda e promoções relâmpago são estratégias comuns. E, para quem cai no golpe, os traumas são muitos, tanto que há vítimas que sequer registram ocorrência por vergonha.

Para o delegado Emerson Wendt, a subnotificação ainda é um dos principais entraves. Pesquisa do Senado, em 2024, apontou que 25% dos brasileiros já foram vítimas de fraudes financeiras virtuais. “Na prática, cada pessoa ou já sofreu algum golpe pela internet ou conhece alguém próximo que foi vítima. Isso mostra que o número real de casos é ainda maior”, observa.

Ferramentas de combate

O combate aos crimes cibernéticos exige o uso de tecnologias sofisticadas e profissionais preparados para lidar com um cenário cada vez mais complexo. Para saber mais sobre as ferramentas utilizadas pela Polícia Civil, a reportagem consultou o professor na Escola de Tecnologia da Unisenac, Campus Pelotas, Eduardo Maroñas Monks. Ele sugere recursos como softwares de monitoramento e servidores de alta capacidade.

“A cooperação entre forças de segurança nacionais e internacionais é indispensável, já que os criminosos operam em escala global, ultrapassando fronteiras físicas e digitais”, comenta o professor. Confira mais dicas no quadro ao lado

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