A morte precoce da cantora Preta Gil aos 50 anos, que foi vencida pelo câncer de intestino, coloca o tema em evidência e reforça a prevenção. Uma doença silenciosa, mas que pode ser diagnosticada em estado inicial e tratada, embora o acesso pelo Sistema Único de Saúde (SUS) inviabilize essa premissa. O segundo tipo de câncer mais comum no Brasil em homens e mulheres, o também chamado de câncer colorretal, preocupa especialmente a Região Sul, que apresenta uma das maiores taxas de incidência da doença no país. A maior longevidade da população e hábitos alimentares pouco saudáveis são alguns dos fatores associados a esse cenário.
Embora a maioria dos casos ocorra em pessoas com mais de 50 anos, a médica gastroenterologista Elza Bueno, do Hospital Escola da UFPel (Ebserh), alerta para o aumento de diagnósticos em adultos jovens. “Esse crescimento pode estar ligado a fatores como dieta inadequada, sedentarismo, obesidade e alterações na microbiota intestinal desde a infância”, explica a especialista, que também é professora da Faculdade de Medicina da UFPel e supervisora do Programa de Residência em Gastroenterologia.
O caso da cantora Preta Gil ajudou a trazer visibilidade ao tema. Segundo Elza, “casos como esse impactam emocionalmente a população e contribuem para ampliar a conscientização sobre os sinais e riscos da doença.” Entre os fatores de risco estão a idade, histórico familiar de câncer colorretal, presença de pólipos, doenças inflamatórias intestinais como retocolite ulcerativa e doença de Crohn, além de comportamentos como o sedentarismo, obesidade, tabagismo e o consumo excessivo de bebidas alcoólicas.
A alimentação também exerce papel crucial. “Dietas ricas em carnes vermelhas e processadas, pobres em fibras, frutas, verduras e legumes aumentam o risco da doença. Em contrapartida, uma dieta balanceada pode atuar na prevenção do câncer”, destaca Elza.
Segundo a médica, hábitos como o consumo frequente de embutidos e a inatividade física impactam diretamente a saúde intestinal, favorecendo a formação de compostos cancerígenos e alterando a microbiota intestinal. “Atividade física regular e ingestão de fibras são aliadas da prevenção”, reforça.
Embora a maioria dos casos não seja hereditária, cerca de 5% a 10% estão ligados a síndromes genéticas. Ter dois ou mais parentes de primeiro grau diagnosticados com câncer colorretal, especialmente antes dos 50 anos, é um alerta importante para a realização de exames preventivos, como a colonoscopia.
Sintomas que merecem atenção
Os principais sintomas do câncer de intestino incluem mudanças persistentes no hábito intestinal (como diarreia ou constipação), sangue nas fezes, dor abdominal, sensação de evacuação incompleta, perda de peso inexplicada e anemia. No caso da Preta Gil, os sintomas foram percebidos pelo formato das fezes, chamada de “cocô de fita”, ou seja, achatado. “O sangue nas fezes muitas vezes é atribuído erroneamente a hemorroidas. Mudanças no formato, presença de muco, cansaço excessivo e dores abdominais recorrentes podem ser sinais precoces da doença e não devem ser ignorados”, orienta Elza. Para a médica, o diagnóstico precoce é decisivo para o sucesso do tratamento, e pode salvar vidas.
Para ter qualidade de vida
Há dez anos, o aposentado Luís Carlos Daunis Pieren passou a ter dificuldades para urinar e procurou um especialista. O tratamento para a próstata aumentada abriu caminho para que ele descobrisse, através de uma colonoscopia, um tumor avançado, a apenas 10 centímetros do ânus. “Se eu não operasse imediatamente, o intestino podia romper. Eu não estaria mais aqui”, afirma. Ele passou por cirurgias, quimioterapia e enfrentou uma infecção por Covid-19 durante o tratamento. Hoje, vive com uma colostomia definitiva.
O uso da bolsa coletora, além do impacto físico, gerou consequências emocionais. “Muita gente com bolsinha se isola, deixa de sair, de ir a festas, ao mercado. É uma realidade invisível e solitária.” Em suas visitas ao interior de Canguçu, teve outra descoberta: que não era o único que dependia do kit para poder lidar com a doença com um pouco de qualidade de vida. Foi quando conheceu a Associação dos Ostomizados, Familiares e Amigos (Assofam) onde Pieren encontrou apoio e motivação para atuar em benefício de outros pacientes, como presidente.
“Sobrevivi para ajudar outros a não passarem pelo que passei”
Luís Carlos Daunis Pieren, 81 anos, paciente oncológico e presidente da Assofam
Fundada há 32, a entidade enfrentava dificuldades sem sede fixa e com recursos limitados. Na presidência, o aposentado contou com o apoio do amigo Vicente Amaral para intensificar a mobilização. A primeira conquista foi um espaço no Terminal Rodoviário para ações com os associados. A próxima etapa é conscientizar o Poder Público e iniciativa privada para instalação de banheiros adaptados (pois o ostomizado precisa fazer a limpeza da bolsa). “Queremos ainda montar uma clínica para oferecer exames preventivos” projeta Pieren.
Estima-se que existam cerca de 1,5 mil pessoas ostomizadas na Zona Sul, sendo aproximadamente 500 em Pelotas. Mesmo assim, o Estado disponibiliza apenas oito bolsas por mês por paciente, número insuficiente. “É como limitar alguém a ir ao banheiro só oito vezes no mês”, diz Amaral. Muitas pessoas precisam lavar e reutilizar as bolsas, mesmo com infecções ou diarreia.
Colonoscopia
A fila de espera para um exame de colonoscopia em Pelotas está em 7.217, sendo que o levantamento tem como base pessoas que esperam desde 2019, portanto, pode ser um número defasado. Por isso, outra ação da Associação é arrecadar recursos para ajudar a custear o exame que custa em média R$ 1,2 mil. Quem quiser pode ajudar a Assofam pode entrar em contato pelo telefone/ WhatsApp (53) 98465-1834.
Entrevista com a gastroenterologista Elza Bueno
Quais são os tratamentos disponíveis atualmente?
O tratamento depende do estágio da doença e pode incluir cirurgia, quimioterapia, radioterapia e, em alguns casos, terapias-alvo ou imunoterapia. O plano é sempre individualizado, considerando o tipo de tumor e as condições clínicas do paciente.
O diagnóstico precoce muda drasticamente as chances de cura?
Sim, de forma significativa. Quando diagnosticado em estágio inicial, o câncer de intestino pode ter taxas de cura superiores a 90%. Em estágios mais avançados, essas chances diminuem consideravelmente. Por isso, o rastreamento é tão importante.
Com que idade é recomendado iniciar os exames preventivos, como a colonoscopia?
Em geral, recomenda-se iniciar a colonoscopia aos 45 anos para pessoas com risco médio. Em casos com histórico familiar ou fatores de risco elevados, o rastreamento pode começar mais cedo, conforme história de neoplasia de colón na família, idade que o familiar descobriu a neoplasia e orientação do médico assistente do paciente.
Há avanços recentes ou promissores no tratamento do câncer colorretal?
Sim. A medicina de precisão tem avançado bastante, com testes genéticos que identificam mutações específicas no tumor e permitem tratamentos mais direcionados. Além disso, imunoterapia e novos medicamentos biológicos vêm mostrando resultados promissores em casos selecionados.
Existem exames alternativos ou menos invasivos para rastreamento?
Sim. Testes de sangue oculto nas fezes e pesquisa de DNA nas fezes são opções menos invasivas que ajudam a identificar alterações suspeitas. No entanto, a colonoscopia continua sendo o exame mais completo, considerado o padrão ouro, pois permite visualizar o intestino e remover pólipos preventivamente.
Ainda existe tabu ou resistência em procurar um médico para falar sobre o intestino?
Infelizmente, sim. Muitas pessoas ainda evitam falar sobre o funcionamento do intestino por vergonha ou desinformação. Isso pode atrasar o diagnóstico e comprometer o tratamento. Falar sobre o tema com naturalidade é fundamental para a prevenção.
Como desmistificar a colonoscopia e incentivar o cuidado com a saúde intestinal?
A colonoscopia é um exame seguro, rápido e, na maioria dos casos, indolor. É importante explicar que ela pode prevenir o câncer ao identificar e remover pólipos antes que se tornem malignos. Campanhas de conscientização e o exemplo de figuras públicas, como a cantora Preta Gil, ajudam a quebrar o tabu e incentivar a prevenção.
